A história e representações do Bispo do Mar

O Bispo do Mar, por Jean Sluperji

A existência do Bispo do Mar foi documentada pela primeira vez em 1433, quando um espécime foi encontrado nadando no mar Báltico. A criatura foi capturada e dada como tributo ao Rei da Polônia, que ficou tão feliz que se recusou a devolver o animal ao seu ambiente aquático.

Através de um conjunto de circunstâncias desconhecidas, um grupo de bispos católicos conseguiram uma audiência com a criatura encarcerada. Infelizmente, os registros oficiais deste encontro não são conhecidas, tendo sido perdidas, destruídas ou escondidas – se é que isso realmente aconteceu.

Segundo a lenda, o peixe fez um gesto para os bispos, aparentemente comunicando seu desejo de ser libertado. Os bispos tentaram convencer o rei de que o animal deveria ser devolvido ao mar, e eventualmente o rei permitiu. Uma vez libertada, a grata criatura supostamente fez o sinal da cruz antes de mergulhar nas profundezas do oceano.

Outra história, mais trágica, supostamente aconteceu na Alemanha, em 1531, quando um Bispo foi capturado ao largo da costa alemã, mas a criatura recusou os alimentos de seu captor e morreu depois de apenas três dias. No entanto, uma outra história detalha um “aparentemente estranho peixe” pego no Atlântico Britânico. Descrito como “Uma criatura pacífica que parecia ter a mitra de um bispo”, este animal também morreu logo depois, e seu corpo foi devolvido ao mar.

Apesar de os relatórios não estarem claro se o Bispo tinha uma capacidade de falar ou era dotado simplesmente de um intelecto avançado o suficiente para se comunicar através de formar rudimentares ou língua de sinais, é óbvio que aqueles que narraram as histórias sentiam que as criaturas possuíam uma sensibilidade quase humana.

O Bispo de Guillaume Rondelet.

Originalmente publicado em Libri de Piscibus Merinis, em 1554, o cientista Guillaume Rondelet baseou seu Bispo do Mar em um registro que ele recebeu de um médico, Gisbertus Germanus, que disse ter visto a criatura na Polônia. Rondelet era cético, e afirmava que havia omitido em seu desenho os diversos relatos “fabulosos” que haviam sobre a criatura.

“Eu apresento a imagem do monstro exatamente como a recebi”, disse ele. “Se é verdade ou não, eu nem afirmo e nem nego”.

O peixe fez uma aparição no final do século 16 no livro Des Monstres de Ambroise Paré’s, usando roupas pontificais. Não se sabe se o próprio Paré era um católico devoto, mas poucos meses antes de sua morte ele supostamente enfrentou o Arcebispo de Lyon em nome dos pobres e famintos em Paris. A animosidade religiosa estava em alta durante a vida de Paré’s e por séculos depois dele, por isso não é coincidência que alguns dos monstrons tenham semelhanças marcantes com clérigos. O crescente período de conflitos religiosos chamava maior atenção aos monstros e mudava as explicações oferecidas por eles, de pecados, ganância e vaidade para os pecados de heresia, blasfêmia e vaidade.

Quatro anos depois, em 1558, Conrad Gerner publicou em Zurique seu livro Historiae Animalium, onde relatava que dois monstros haviam sido pegos do mar: um “Wassermünch” (um monge do mar), encontrado na Noruega, de acordo com ele, “na nossa época”, que parecia com um monge, e um outro, um Bispo do mar, encontrado na Polônia.

O Bispo de Richard Breton.

A imagem do Bispo do mar continuou a mesma por alguns anos, até que em 1562 um impressor chamado Richard Breton publicou uma imagem mais assustadora no livro Le Recueil de la Diversité des Hábitos (autor desconhecido). Seu bispo do mar apareceu em um livro sobre estilos de roupas locais e estrangeiras no mesmo ano – o livro não era realmente sobre moda, mas sim como um livro para pessoas lerem como forma de diversão e curiosidade, uma vez que as experiências marítimas no século 16 geralmente resultavam em morte. Como renascentistas, iluministas e naturalistas descobriam animais mais exóticos, eles geralmente usavam analagias familiares para descrever o que haviam encontrado, e a descrição de Rondelet pode ou não pertencer a essa tradição.

Ao mesmo tempo, muitos católicos e protestantes totalmente desprezavam uns aos outros, e monstros de aparências clericais eram uma maneira de criticar os seguidores da religião oposta. Protestantes fervorosos fizeram o Bispo do Mar não só mais feio do que Rondelet, mas também teve o cuidado de dar-lhe um traje mais elegante (note o bordado da capa da criatura). Será que Breton queria que as pessoas entendessem sua imagem literalmente? Pode ter sido uma simples sátira, embora os assustadores desenhos fossem divulgados pro Martinho Lutero e Philipp Melanchthon para avisar os católicos que seguiam líderes terríveis.

O Bispo de Caspar Schott.

Em 1662,  o cientista Caspar Schott publicou várias figuras marinhas no livro Physica Curiosa. Entre elas um peixe semelhante a um monge e uma outra parecia com um bispo. Schott era estudante e colaborador de longa data do jesuíta alemão Athanaiu Kircher. Além de editar e defender as obras de Kircher, Schott publicou alguns livros de sua autoria.

O Bispo de Johann Zahan.

Em 1696, trinta e quatro anos depois de Schott, o cientista Johann Zahan publicou no livro Specula Physico-Mathematico-Historica uma representação de um monstro marinho parecendo vagamente como um clérigo. É notável a semelhança de seu desenho e a de Schott, e Zahan escreveu ao lado da criatura que ela foi retirada das águas geladas do mar Báltico em 1531 – é provável que ele estivesse se referindo à criatura capturada na Alemanha, pois não existe nenhum outro registro de nenhum outro Bispo capturado naquele ano.

Alguns pesquisadores acreditam que o Bispo poderia ser uma espécie de arraia deformada, cujas características teriam uma ligeira semelhança com as de um homem. Mas se os Bispos do Mar eram na verdade alguma raça que já conhecemos deformada, ou uma nova espécie, a questão é que vai continuar assombrando muitas pessoas.

Bibliografia:
Bishop Fish“. Acesso em 23 de Julho de 2014.
Monkfish, anyone? The strange story of the Polish sea-bishop“. Acesso em 23 de Julho de 2014.
Monsters“. Acesso em 23 de Julho de 2014.
Sea Monsters“. Acesso em 23 de Julho de 2014.

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A história e representações do Monge do Mar

155

Ilustração do livro “Monachus marinus” de 1555.

Em algum momento durante 1545-1500, o rei dinamarquês Cristiano III enviou para o Sacro Imperador Romano Carlos V, então na Espanha, desenhos de um estranho animal que havia sido pego em Öresund, o estreito entre a ilha de Sjælland (Dinamarca) e a Suécia.

A criatura foi descrita como tendo

“uma cabeça e rosto humanos, assemelhando-se na aparência dos homens com cabeça tosquiada, a quem chamamos de monge por causa de sua vida solitária; mas a aparência das suas partes inferiores, tendo um revestimento de escamas, mal indicava o tronco e os membros e juntas do corpo humano. Pela ordem do rei esta abominável criatura foi imediatamente enterrada no solo, a fim de que não aconteça, como o novo e incomum faz, fornecer um assunto fértil para conversas ofensivas.”

Essa estranha criatura despertou o interesse em toda a Europa, e seu apelo para o Imperador foi tanta que um cronista alegou que, como resultado, o rei Cristiano foi incluído em uma aliança formada no ano de 1550 entre o Imperador e os escoceses. O historiador William M. Johnson observou que a face do Monge tinha uma semelhança impressionante com São Francisco de Assis.

Os Monges de Guillaume Rondelet (1554) e Pierre Belon (1553).

Segundo Conrad Gerner, houveram mais três casos de Monges capturados: em 1530, 1546 e 1549. Curiosamente, o monge de 1546 era negro.  Na obra “Annales” de John Stow, ele registra a captura de uma dessas criaturas, onde no ano de 1187 um peixe com forma de homem foi retirado do mar perto de Suffolj, e mantido em custódia em um castelo. Durante mais de seis meses, ele não falou nenhuma palavra e comeu apenas peixe cru. Muitas vezes, era levado para a igreja, onde “não mostrava nenhum sinal de adoração”. Depois, quando estava com uma aparência não muito boa, o homem-peixe fugiu para o mar e nunca mais foi visto.