As douradas sereias de Charmed

charmed“A Witch Tail” é o primeiro episódio da quinta temporada da série Charmed, que foi ao ar no dia 22 de Setembro de 2002. Nesta parte da história, as personagens Piper, Phoebe e Paige ajudam a sereia Mylie, que precisa de ajuda depois de fazer um pacto com a Bruxa do Mar, um ser mágico malévolo conhecido por tentar as sereias a desistirem de sua imortalidade pelo amor de um ser humano. Ele então recolhe sua essência imortal, a fim de negociar com poderosos demônios.

Mylie precisava encontrar seu amor em 30 dias, e conheceu um homem chamado Craig Wilson, mas ele não declarou seu amor no tempo esperado. Com a ajuda das personagens da série, Mylie mostra a Craig quem ela realmente é – uma sereia, e ele se assusta e foge. A sereia ficou triste, e a Bruxa do Mar convence-a a desistir de sua imortalidade. Felizmente, Craig muda de idéia, confessa seu amor e Mylie torna-se uma humana comum. No final do episódio, Phoebe, Paige e Piper querem procurar a Bruxa do Mar por causa de Myllie. Elas lançam um feitiço contra a Bruxa, e Phoebe vira uma sereia. Elas conseguem derrotar a Bruxa, mas Phoebe não vira humana, e se recusa a voltar para à Terra.

Phoebe acaba presa em um barco de pesca. Ela ainda quer ser uma sereia, e quer ficar na água. Resgatada, Phoebe é colocada em uma banheira. No final, ela acaba tornando-se humana novamente, e assina os papéis para divorciar-se de seu marido, apesar de ainda amá-lo.

Apesar das duas atrizes usarem cauda e top parecidos, me parece claro que existem pelo menos dois tipos de cauda: uma “dura”, para a qual ela têm que ser carregada; e outra, que parece ser feita de tecido, que permite à atriz ficar de pé e de joelhos – essa foi sem dúvida a única vez que vi uma sereia, com cauda, “andando”.

Depois do sucesso deste episódio, o produtor executivo da série propôs um spin off chamado “Sereia”, que seria centrado na sereia Nikki, resgatada por um jovem em Miami. Matt Johnson, o salvador, é um advogado que vive com um olega de quarto e está envolvido com a filha de seu chefe. Inicialmente, ele está totalmente descrente da natureza de Nikki. De acordo com a mitologia da série, as sereias são criaturas cuja evolução occoreu debaixo d’água. As sereias são originárias de uma cidade submersa e têm habilidades sobrenaturais, incluindo força sobre-humana, ler as emoções, ver no escuro e sentir conexões com outras criaturas do mar. No entanto, outras criaturas que também começaram sua existência debaixo da água começaram a se adaptar na terra, como Eric Luger, que está caçando Nikki, que por sua vez tenta ter uma vida normal, trabalhando como garçonete enquanto vive com Matt. Ela começa a ajudar Matt, como o vilão Luger explica: as sereias são feitas para protege os inocentes, está “em seu sangue”.

Depois de passar por 300 garotas, o produtor executivo escolheu Nathalie Kelley como intérprete de Nikki. Apesar de ter uma boa chance virar um sucesso, quando os canais The WB e UPN foram incorporados pela rede The CW, começaram a se falar dos riscos que haveria caso o episódio não fosse bem aceito, e além disso os estúdios Paramount e CBS cortaram o orçamento pela metade.

 Phoebe  (5) Phoebe  (2) Phoebe  (3)
 Phoebe  (4) Phoebe  (1) Phoebe  (6)
 Phoebe  (7) Phoebe  (8) Phoebe  (9)
Mylie (3) Mylie (2) Mylie (5)
Mylie (4) Mylie (6) Mylie (1)
     

Bibliografia:

Mylie. Acesso em 11 de Setembro de 2014.
Mermaid (Pilot). Acesso em 11 de Setembro de 2014.
A Witch’s Tail, Part 1/Plot. Acesso em 11 de Setembro de 2014.
A Witch’s Tail, Part 2. Acesso em 11 de Setembro de 2014.
A Witch’s Tail, Part 2/Plot. Acesso em 11 de Setembro de 2014.

A história e representações do Monge do Mar

155

Ilustração do livro “Monachus marinus” de 1555.

Em algum momento durante 1545-1500, o rei dinamarquês Cristiano III enviou para o Sacro Imperador Romano Carlos V, então na Espanha, desenhos de um estranho animal que havia sido pego em Öresund, o estreito entre a ilha de Sjælland (Dinamarca) e a Suécia.

A criatura foi descrita como tendo

“uma cabeça e rosto humanos, assemelhando-se na aparência dos homens com cabeça tosquiada, a quem chamamos de monge por causa de sua vida solitária; mas a aparência das suas partes inferiores, tendo um revestimento de escamas, mal indicava o tronco e os membros e juntas do corpo humano. Pela ordem do rei esta abominável criatura foi imediatamente enterrada no solo, a fim de que não aconteça, como o novo e incomum faz, fornecer um assunto fértil para conversas ofensivas.”

Essa estranha criatura despertou o interesse em toda a Europa, e seu apelo para o Imperador foi tanta que um cronista alegou que, como resultado, o rei Cristiano foi incluído em uma aliança formada no ano de 1550 entre o Imperador e os escoceses. O historiador William M. Johnson observou que a face do Monge tinha uma semelhança impressionante com São Francisco de Assis.

Os Monges de Guillaume Rondelet (1554) e Pierre Belon (1553).

Segundo Conrad Gerner, houveram mais três casos de Monges capturados: em 1530, 1546 e 1549. Curiosamente, o monge de 1546 era negro.  Na obra “Annales” de John Stow, ele registra a captura de uma dessas criaturas, onde no ano de 1187 um peixe com forma de homem foi retirado do mar perto de Suffolj, e mantido em custódia em um castelo. Durante mais de seis meses, ele não falou nenhuma palavra e comeu apenas peixe cru. Muitas vezes, era levado para a igreja, onde “não mostrava nenhum sinal de adoração”. Depois, quando estava com uma aparência não muito boa, o homem-peixe fugiu para o mar e nunca mais foi visto.

 

O Velho Homem de Cury/O Pente Mágico

The Fisherman and the Syren, por Frederic Leighton, c. 1856–1858.

Mais de cem anos atrás, em um belo dia de verão, quando o sol brilhava em um céu sem nuvens, um velho chamado Lutey andava nas areias em uma das enseadas perto de um lugar chamado Ponto do Lagarto. Ele vivia em uma casa de campo na pequena aldeia de Corantyn (chamada atualmente e Cury), perto de Mullion. Ele estava andando, olhando para as conchas e destroços que vinhm da praia, quando viu, em uma profunda piscina deixada pela maré, uma bela dama. Ela tinha cabelos dourados, tantos que praticamente a cobriam inteira, e estava sentada em uma pedra. A jovem estava tão absorta em sua ocupação – penteando seus cabelos na água espelhada, ou admirando o seu próprio rosto, que ela não notou o intruso. Ela parecia muito chateada, e estava chorando lastimosamente.

O velho ficou olhando para ela por algum tempo antes que ele imaginasse como agir. Finalmente ele resolveu falar com a moça. “Como vai jovem?” , disse ele, “o que você está fazendo aqui, a essa hora do dia?” Assim que ela ouviu a voz, ela deslizou da rocha afundando na água.

O velho viu um vislumbre de sua calda, e percebeu que não era um ser humano, mas uma sereia. Ele já tinha ouvido falar sobre sereias com os pescadores da Gunwalloe. Em seu entusiasmo, ele correu em sua direção e disse para ela não ter medo. Ele viu que a moça estava tão apavorada como ele, e que, por vergonha ou medo, ela tentou esconder-se nas fendas das rochas, e enterrar-se sob as algas. “Eu sou apenas um homem velho e curioso, que nunca teve o privilégio de encontrar uma sereia antes. Por favor, minha senhora, não tenha medo, pois eu nunca a machucaria”, disse o homem.

Depois que ele falou dessa maneira suava por algum tempo, a jovem tomou coragem e ergueu a cabeça acima da água. Ela chorava amargamente, e, logo que ela pôde falar, ela implorou ao velho para ir embora. Ele dise novamente que não pretendia machucá-la, mas não podia deixar de se questionar porque ela estava tão chateada. Sua voz era gentil, e a sereia nadou um pouco mais para perto da rocha.

“Eu preciso saber, minha querida, algo sobre vós, agora que eu vi você. Não é todo dia que um homem velho pega uma sereia, e eu ouvi alguns contos estranhos a respeito de vocês, mulheres do mar. Agora, minha cara, não tenha medo, eu não iria machucar um único fio de cabelo de sua linda cabeça. Como você chegou aqui? ”

Depois de mais alguma adulação ela disse ao velho a seguinte história: ela e seu marido e os pequeninos tinham andando ocupados no mar toda a manhã, e eles estavam muito cansados por nadar sob o sol quente, de modo que o tritão propôs que eles deveriam retirar-se para uma caverna, que eles tinham o hábito de visitar em Kynance Cove. Eles nadaram longe, e entraram na caverna no meio da maré. Como lá havia um pouco de uma gradável alga macia, e a caverna era deliciosamente fresca, o tritão se dispôs a dormir, e disse-lhes para não acordá-lo até a subida da maré. Ele foi logo dormindo, roncando vigorosamente. As crianças rastejaram para fora e estavam brincando na areia encantadora, assim a sereia achou que deveria ivestigar um pouco o mundo. Ela olhou com prazer nas crianças rolando para lá e para cá nas ondas rasas, e ela riu na luta dos caranguejos, engraçada à sua própria maneira.

 “O perfume das flores, descia sobre a falésia tão docemente”, disse ela, “que eu ansiava por chegar mais perto das coisas encantadoras que emitiam esses ricos odores, e eu flutuava de pedra em pedra até que eu vim para esta, e concluindo que eu não poderia avançar ainda mais, pensei que eu deveria aproveitar a oportunidade de arrumar o meu cabelo “.

Ela passou os dedos por seus lindos cachos, e sacudiu alguns pequenos caranguejos e muitas algas marinhas. Ela passou a contar que ela tinha sentado sobre a rocha admirando a si mesma até que a voz de um mortal apavorou dela, e até então não tinha idéia de que o mar estava tão longe, com uma enorme faixa de terra entre ela e o mar.

“O que devo fazer? O que devo fazer? Oh, eu daria o mundo para voltar para o mar! Oh, Oh! O que devo fazer?”

Ela continou contando que, quando seu marido acordar, ele ficaria com fome, e os tritões ficam muito cruéis quando estam com fome. Ele poderia comer até as crianças. Além disso, ela continou, ele também é terrivelmente ciumento, e se ela não estava ao seu lado quando ele acordasse, ele iria suspeitar que ela teria fugido com outro tritão e assim a procuraria e a mataria.

Isto quebrou o coração do velho, e ela implorou que ele a carregasse para o mar. Se ele o fizesse ela daria a ele quaisquer três coisas que ele desejasse. Seus pedidos finalmente prevaleceram e, de acordo com seu desejo, o velho ajoelhou-se na rocha, de costas para ela. Ela apertou os braços junto ao pescoço dele, e firmou os dedos membranosos em sua garganta. Ele levantou-se da rocha com o seu fardo, e levou assim a sereia pela areia. Enquanto era conduzida desta forma, ela pediu o velho para lhe dizer o que ele desejava.

“Eu não desejo”, disse ele, “prata e ouro, mas me dê o poder de fazer o bem aos meus vizinhos: em primeiro lugar, para quebrar os feitiços de bruxaria; segundo, e encantamentos para afastar doenças, e em terceiro lugar, para descobrir os ladrões e restaurar bens roubados. “

O molusco Murex Pecten é conhecido pelo nome de “Pente de Sereia”, por causa do seu arranjo perfeito de mais de cem espinhos.

Ela prometeu que realizaria seu desejo, mas para isso ele precisaria chegar a uma rocha coberta até a metade pela maré no dia seguinte, e ela iria instruí-lo como fazer as três coisas que ele desejava. Tinham chegado à água e a sereia deu o pente que estava em seu cabelo para o velho, dizendo que ele tinha apenas que pentear a água e chamá-la a qualquer momento, que ela viria até ele. A sereia afrouxou seu abraço, e deslizou do pescoço do velho de volta ao mar, ela jogou-lhe um beijo e desapareceu.

No outro dia, o velho estava na rocha na hora marca – conhecida até o hoje como a Rocha da Sereia – e foi devidamente instruído pela sereia em muitos mistérios. Entre outros, ele aprendeu a quebrar os feitiços de bruxas sobre homem ou animal, como preparar um vaso de água, para mostrar a qualquer um que teve seus bens roubados o rosto do ladrão e a curar várias doenças doenças.

A sereia convenceu seu velho amigo a levá-la a um lugar secreto, de onde ela podia ver mais da terra seca e do povo engraçado que vivia nela, “que tinham suas caudas arrancadas, e assim podiam andar. ” Ao levar a sereia de volta para o mar, ela desejou que seu amigo a visitasse em seu lar, e até prometeu fazê-lo jovem se ele fizesse isso, favores que o velho respeitosamente declinou.

A família do velho, muito conhecida na Cornualha, por algumas gerações têm exercido o poder de enfeitiçar. Eles tem em a posse deste poder da maneira como foi relatada. O pente da sereia, que existe até os dias atuais, é mostrada pela família como prova do seu poder sobrenatural.

Bibliografia:
The Old Man of Cury. Acesso em 20 de Julho de 2014.
A Mermaid and a Magic Comb. Acesso em 20 de Julho de 2014.
O ancião de Cury. Acesso em 20 de Julho de 2014.

A obscura sereia de Lost Girl [2014]

lostHá uma abundância de criaturas em Lost Girl, um programa de TV de drama canadense que estreou em 2010. A personagem principal é Bo, uma súcubo que está descobrindo seu papel no mundo entre a luz e a escuridão, e ao longo do caminho ela e seus amigos investigam casos que envolvem criaturas sobrenaturais. O episódio “Waves”, da quarta temporada, que foi ao ar no dia 19 de Janeiro de 2014, introduz as sereias à mitologia sobrenatural da série.

Neste episódio, uma executiva chamada Diana está nadando quando é atacada por uma criatura que lhe corta as pernas. Diana vai a agência dos detetives para ajudar, e com Bo envolvida em outro caso, seus amigos Kenzi, Dyson e Lauren pegam o caso.

Kenzi e Dyson se disfarçam para entrar no prédio de escritórios, onde eles descobrem um laboratório com assustadores tanques que contêm pernas, e cujo chefe, Darren, costumava ser um tritão. Darrem obteve um “doador” de pernas (que agora trabalha como seu assistente) e teve as pernas humanas enxertadas para que pudesse viver entre os humanos. Ele acredita que a irmã dele, sereia, pretende matá-lo.

lost girl (1)As sereias desse universão são criaturas ferozes, não se enganem. Dyson está ciente dos perigos, mas Kenzi, está preso na idéia da cultura pop de sereias como seres fantástico que penteiam seu cabelo com garfos. Há uma cena curiosa quando Kenzi encontra Darren e ele explica como obteve as pernas, onde Kenzi diz “Você queria estar onde as pessoas estão”, uma das músicas cantadas no clássico da Disney “A Pequena Sereia”. Eles descobrem então que a sereia entrou na piscina rastejando pelos dutos do prédio.

Lauren atua como isca na mesma piscina para atrair a sereia, que se chama Dominique. Ela está presa, e explica que sereias são dotadas de pernas mágicas por um ano para explorar a terra, mas devem voltar ao mar depois. Ela também explica que ao chorar suas lágrimas se transformar em pérolas de sal, e uma vez que ela chora dezoito pérolas, ficam autorizados a tirar uma vida. Mas ela não quer a vida de Darren – ela só quer punir Diana, que vemos que é sua irmã e também uma ex-sereia, que prometeu encontrar Darren, mas também não quis voltar para o mar. Revela-se então que Dominique estava irritada com Dyson e Diana por tê-la deixado para trás, no mar, enquanto ambos viviam juntos na terra. “Você tem alguma idéia do que é a sensação de ser ignorado…excluído por alguém que você ama?”, pergunta a sereia.

Existe uma cena de conflito, onde eles são salvos por um pensamento de Lauren: na série, sereias são mortalmente alérgicos a água da torneira.

Emily Andras, produtora executiva da série, disse que ficou nervosa e ansiosa com o episódio, fazendo-a a acreditar em contos de fada novamente.

lost girl (1)A coisa sobre sereias é que estamos sempre procurando fazer as criaturas mitológicas de uma forma que não seja óbvio. Então pensamos: “Não seria engraçado se as sereias fossem como vacas loucas do mar?”

A produtora continua que eles não haviam proposto que todas as sereias da série fossem louras estereotipadas, mas uma vez que os três deveríam ser irmãos, eles deveriam pelo menos combinar um pouco. Infelizmente, não há cenas subaquáticas, mas a mitologia é interessante por ser tão obscura. As sereias são todas muito bonitas (assim como a maioria dos atores) e, apesar da cauda de Dominique não entrar em ação, é possível ver que ela é musculosa, ao invés da sólida e pesada geralmente usada em filmes e séries.

Bibliografia:
Lost Girl’s mermaids prove it’s not better down where it’s wetter. Acesso em 22 de Julho de 2014.
Lost Girl. Acesso em 22 de Julho de 2014.
Lost Girl 410 Q&A w/Exec Prod Emily Andras“. Acesso em 22 de Julho de 2014.

“Ne Hwas”, as sereias irmãs

irmãsHá muito tempo atrás existia um índio, sua esposa e suas duas filhas. Eles viviam perto do mar, ou de um grande lago, e a mãe das meninas disse para que elas nunca fossem nadar, pois se fossem, algo terrível aconteceria com elas. As meninas, no entanto, enganaram a mãe repetidamente, e a o esporte proibido tornou-se agradável. A beira do lago acabava em uma ilha. Um dia elas nadaram até lá, deixando suas roupas na praia.

Os pais logo deram por falta dela, e o pai foi procurá-las. Ele as viu nadando longe, e as chamou. Elas nadaram até a areia, mas não conseguiam ir adiante. O pai perguntou-lhes porque. Elas gritaram que suas pernas tinham crescido e ficado tão pesada que era impossível andar. Além disso, haviam ficado viscosas: na verdade, tinham virado serpentes cintura para baixo.a. Após mergulhar algumas vezes neste lodo estranho elas se tornaram muito bonitas, com longos cabelos e olhos negros e luminosos, com faixas de prata em seu pescoço e braços.

Quando o pai foi buscar as suas roupas, elas começaram a cantar nos tons mais requintados:

“Deixe-as lá
Não as toque
Deixe-as lá! “

Ouvindo isso, a mãe começou a chorar, mas as meninas continuaram:

“É tudo culpa nossa,
Mas não nos culpem
Isso não será nada ruim para você.
Quando você estiver na sua canoa,
Então você não precisará de remo
Pois nós a carregaremos!”

E assim foi: quando seus pais andavam de canoa, as meninas a levavam com segurança para todos os lugares.

Um dia, alguns índios viram as roupas das meninas na praia, e encontraram as garotas nadando, na água, e as persuadiram e tentaram capturá-las, mas elas eram tão viscosas que era impossível tocá-las, até que um deles, agarrando uma das irmãs pelo seu logo cabelo preto, cortou-a.

Então a menina começou a balançar a canoa e ameaçou virá-la, a menos que seu cabelo fosse devolvido. O índio que havia ludibriado a sereia a princípio recusou, mas como as sereias ou donzelas serpentes, prometeram que todos eles se afogariam a menos que isso fosse feito eles devolveram e elas foram embora. No dia seguinte, eles ouviram que as menins tinham sido vistas uma última vez e que seu cabelo cortado tinha voltado para sua cabeça e estava crescendo.

A essas sereias foram dadas o nome de “Ne Hwas”, que na língua do povo Passamaquoddy significa “espírito”, sendo também usada para se referir a qualquer tipo de criatura sobrenatural. Esse mito nativo americano do século 19 é muitas vezes comparado com uma história da mitologia nórdica, onde Loki, o deus trapaceiro, corta o cabelo de uma deusa. No final da história, assim como nesta, o cabelo não só volta para sua dona, como também magicamente se reata.

Bibliografia:
Ne Hwas, a sereia.” Acesso em 20 de Julho de 2014.
Ne Hwas, the Mermaid.” Acesso em 20 de Julho de 2014.
Ne Hwas Stories.” Acesso em 20 de Julho de 2014.
Native American Myth: Ne Hwas – The Mermaid.” Acesso em 20 de Julho de 2014.

A história dos sereianos de Harry Potter e sua aparição em “O Cálice de Fogo” [2005]

A Sereia, raça típica da Grécia, é mostrada em um vitral.

Merpeople (Sereianos), também conhecidos por seus nomes regionais de Sirens, Selkies e Merrows, existem em todo o mundo, embora variem de aparência como os humanos. Seus hábitos e costumes permanecem misteriosos, embora os bruxos que aprendam o serêiaco nos falem de comunidades excepcionalmente organizadas, cujo tamanho varia conforme a localização, havendo algumas com habitações muito bem construídas. Os sereianos mais antigos que se tem registro são conhecidos pelo nome se sereias (Grécia) e é nas águas mais tépidas que encontramos as belas sereias descritas na literatura trouxa e representadas em suas pinturas. Os sereianos da Escócia e da Irlanda são menos belos, mas revelam o mesmo amor à musica comum a todos sereianos.

– (ROWLING, 2001, pág. 49)

Na história de Harry Potter, os sereianos são divididas em várias sub-espécies ou raças, dependendo do local de onde vivem. As sereias, como conhecemos – metade mulher e metade peixe – seriam oriundas da Grécia, e foram representadas na história através de um mosaico no banheiro dos monitores-chefes. Já a raça Selkie, que aparece no Lado Negro durante a segunda prova do Torneio Tribruxo, é de origem escocesa, aparecendo também nas Ilhas Faoé e Islândia. Embora vivem nos mares, podem mudar de pele ao ficar na terra para procurar amantes humanos. A raça Merrow é a típica sereia irlandesa, considerada menos bonita do que as Sirens da Grécia e os Selkies da Escócia.

O nível exato de inteligência em comparação com a dos seres humanos é desconhecida, no entanto é conhecido que eles possuem uma linguagem desenvolvida, uma cultura próspera e que vivem em comunidades altamente organizadas, contendo habitações elaboradas feitas de pedras. Também são reconhecidos por domesticar criaturas como:

  • Grindylow: um demônio aquático de chifres e pele verde-clara, que se alimenta de pequenos peixes e é agressivo com bruxos e trouxas.
  • Hippocampus

    Hippocampus

    Hippocampus: criatura com cabeça e quartos dianteiros de cavalo, e o rabo e quartos traseiros de um peixe gigante, bota ovos grandes e semi-transparentes, foi capturado e domesticado por sereianos no ano de 1949.

  • Lobalug: criatura de vinte e cinco centímetros de comprimento, formado por um esguicho flexível e uma bolsa de veneno. Quando ameaçada, ela contrai essa bolsa e esguicha veneno no atacante. Os sereianos usam a seringa como arma.

Também é reconhecido que que o Dilátex (Plimply), um peixe esférico e sarapintado, caracterizado por duas longas pernas que terminam em pés palmados são considerados uma praga para os sereianos. Eles habitam os lagos profundos a procura de alimentos, e não são particularmente perigosos. Os sereianos se livram deles dando nós em suas pernas elásticas: o dilátex é então carregado pela correnteza, e sendo incapaz de se orientar só volta quando consegue se desamarrar, o que leva horas.

A história das relações dos sereianos com os bruxos, ou pelo menos os bruxos do governo britânico, são um tanto quanto complicadas. A chefe do Conselho da Magia Elfrida Clagg se recusou a aceitar sereias como seres, uma vez que a definição do termo demandava que “seres” soubessem falar a língua humana, e uma vez que os sereianos só falam sua própria língua – o serêiaco -, que não pode ser entendida acima da água, e foram então enquadrados na categoria de “animais”. Essa decisão perturbou tanto os sereianos quanto os centauros, seus aliados.

Raça Merrow, típica da Irlanda.

Somente no ano de 1811 que os sereianos seriam chamados novamente de “ser”, pois o recém-nomeado Ministro da Magia Grogan Stump decretou que um “ser” era “qualquer criatura que possuísse inteligência suficiente para compreender as leis da comunidade mágica e para compartir a responsabilidade na preparação de tais leis“. Por meio de intérpretes, os sereianos foram convidados a se tornarem “seres”, no entanto, eles pediram, junto dos centauros, a serem chamados de “animais” novamente, uma vez que vampiros e outras criaturas estavam na categoria “ser”. Desse modo, centauros e sereianos declararam que administrariam seus negócios independentes dos bruxos.

Apesar de considerados “animais” na época, uma delegação de sereianos foi convencida a participar da “Confederação Internacional dos Bruxos” no ano de 1692, onde foi decidido durante sete semanas quais espécies seriam ocultadas ou não dos trouxas. Na conclusão do acordo, vinte e sete espécies – incluindo os sereianos – seriam escondidos dos trouxas de modo a criar uma ilusão de que jamais haviam existido, exceto na imaginação.  Desse modo, Feitiços Antitrouxas foram feitos para impedir que invasores penetrassem em lagos e rios onde vivem os sereianos. Em casos extremos, áreas inteiras foram tornadas imapeáveis. Os sereianos também são reconhecido por se contentar com os territórios destinados a seu uso, ao contrário de outras criaturas, como dragões, que aproveitam qualquer oportunidade de sair dos limites de suas reservas.

Selkie

Selkie, raça típica da Escócia, ameaça Harry Potter com uma lança.

A colônia dos sereianos que vivem no Lago Negro de Hogwarts desempenharam um grande papel no ano de 1994, quando a escola sediou o Torneio Tribruxo e eles fizeram parte da segunda tarefa. Notando que as sereias desse lado não tinham qualquer semelhança física com a sereia do banheiro dos monitores-chefe, Harry Potter define as criaturas como tendo:

…. pele cinzenta e longos cabelos desgrenhados e verdes. Seus olhos eram amarelos, como seus dentes quebrados,  eles usavam grossas cordas de seixos ao pescoço… Um ou dois saíram das tocas para examiná-lo melhor, seus fortes rabos de peixe prateados golpeando a água; as lanças nas mãos. (ROWLING, pág. 395)

Embora os bruxos da série Harry Potter aprendam sobre o mundo ao seu redor, eles nem sempre respeitam as criaturas neles. Sereias, centauros e lobisomens, conhecidos na série como “mestiços”, são vítimas de cruéis desigualdades.  Em uma conversa com Hermione, por exemplo, Siriu Black conta que Umbridge aparentemente tinha aversão a semi-humanos e que havia feito uma campanha para arrebanhar e etiquetar sereianos. Isso sem contar a óbvia repulsa que ela sente pelos centauros, aliados dos sereianos, e dos lobisomens (tendo apresentado um projeto de lei que tornava quase impossível para humanos com essa condição arranjar emprego).

Jennifer Purcell

Cabeça de um sereiano, em exibição. Foto de Jennifer Purcell.

Para a segunda tarefa no filme “Harry Potter e o Cálice de Fogo”, o  departamento de artes começou criando os ambientes e as criaturas que lá viviam, como os demônios da água e os sereianos. Longe das tradicionais sereias lindas, os sereianos do filme são imponentes e ameaçadores, e sua aparência foi baseada na anatomia de um esturjão.

“Em vez de ter a ruptura tradicional entre as partes humanas e dos peixes”, explica o artista conceitual Adam Brockbank, “demos o aspecto de peixe à parte humana, com escamas, olhos de peixe e cabelo translúcido, como os tentáculos de uma anêmona-do-mar.” (SIBLEY,2010,pág. 106)

Sereia conforme vista no filme.

“…A cauda dos sereianos foi concebida para que se movesse de um lado para o outro e não para cima e para baixo, que é o que acontece quando você tem uma pessoa vestida de sereia”, explica Jimmy Mitchell, supervisor de efeitos visuais. “Depois, fizemos criaturas mais compridas do que humanamente possível e demos a elas cabelos… o que ajudava na aparência final encantadora, mas ameaçadora.” (MCCABE, pág. 431)

Além dos sereianos que rodeiam Harry durante esta tarefa,  também são descritas mais dois personagens. Um deles, a quem Harry pede a lança emprestada, é um sereiano “com uns dois metros de altura, uma longa barba verde e uma gargantilha de dentes de tubarão”  (ROWLING, pág. 396). Outra, a chamada Chefe dos Sereianos, Murcus, é definida como uma fêmea “particularmente selvagem, de aspecto feroz”ROWLING, pág. 401/402). Os sereianos também fizeram uma aparição no enterro de Dumbledore, cantando uma canção que “falava muito claramente de perda e desespero” (ROWLING, pág. 503). De acordo com Harry, parecia claro que os sereianos lamentavam a morte do diretor.

Bibliografia:
ROWLING, J.K. “Animais Fanásticos e Onde Habitam”. Tradução de Lia Wyler. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.
ROWLING, J.K. “Harry Potter e o Cálice de Fogo. Tradução de Lia Wyler. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.
ROWLING, J.K. “Harry Potter e o Enigma do Príncipe. Rio de Janeiro: Rocco, 2005.
SIBLEY, Brian. “Harry Potter: A Magia do Cinema”. Tradução de Marina Fragano Baird. São Paulo: Panini, 2010.
MCCABE, Bob. “Harry Potter: Das páginas para a Tela”. Tradução de Marina Fragano Baird. São Paulo: Panini, 2011.

A lenda de Melusina, conforme contada por Philippa Gregory

No escuro da floresta, o jovem  cavaleiro ouviu o barulho da água na fonte muito antes de ver o fraco clarão do luar refletido na superfície imóvel. Estava prestes a avançar; ansiava por molhar a cabeça, absorver o frescor, quando ficou sem fôlego ao perceber algo obscuro movendo-se no fundo do lago. Havia uma sombra esverdeada submersa, parecida com um peixe grande, um corpo afogado. Então o vulto se mexeu e se levantou, e ele viu, espantosamente nua, uma mulher se banhando. Quando ela se ergueu, a água escorrendo pelo corpo, sua pele era ainda mais pálida do que o mármore branco da borda do lago, seu cabelo molhado, escuro como uma sombra.

Ela é Melusina, a deusa da água, e é encontrada em fontes e quedas d’água escondidas por todas as florestas da cristandade, até mesmo naquelas tão distantes quanto as da Grécia. Ela também se banha nas fontes mouras. Nos países do norte, onde a superfície dos lagos é coberta por uma camada de gelo que se fende quando ela se ergue, é conhecida por outro nome. Um homem pode amá-la, se guardar o seu segredo e deixá-la sozinha quando  ela quiser se banhar, e ela pode retribuir o seu amor até ele quebrar sua promessa, com os homens sempre fazem.  Ela puxa-o para o fundo, com seu rabo de peixe, e transforma seu sangue desleal em água.

A tragédia de Melusina, em qualquer língua que seja contada, em qualquer melodia que seja cantada, mostra que um homem sempre promete mais do que é capaz de cumprir a uma mulher que ele não pode compreender.

Na escuridão da floresta, ele a viu e murmurou seu nome, Melusina, e ao seu chamado, ela ergueu-se na água. Ele viu que ela era uma mulher dotada de uma beleza fria e perfeita até a cintura, e abaixo, era coberta de escamas, como um peixe. Ela prometeu ir com ele e ser sua mulher, prometeu que o faria tão feliz quanto uma mortal, que refrearia seu lado selvagem, sua natureza dependente das marés,  que seria uma mulher normal para ele, uma esposa de quem ele poderia se orgulhar. Em troca, ele deveria permitir que ela tivesse um tempo para ser ela mesma, para retornar ao seu elemento água, para se lavar e se livrar do trabalho penoso destinado a uma mulher e para ser, mais uma vez, só por um breve intervalo de tempo, a deusa da água. Sabia que ser uma mulher mortal é difícil no coração, é difícil nos pés. Sabia que precisaria ficar sozinha na água, sob a superfície, a agitação da água refletida em seu rabo escamoso de vez em quando. Ele prometeu que lhe daria tudo, que concederia tudo o que quisesse, como homens apaixonados sempre faze. E ela confiou nele, mesmo sem querer, como mulheres apaixonadas sempre fazem.

Combinaram que ela seria sua esposa e caminharia com pés, mas uma vez por mês, ela poderia ir à sua própria câmara, encher uma banheira de água e, por uma noite, ser sua metade peixe. E assim viveram felizes durante muitos anos. Pois ele a amava e compreendia que uma mulher não pode viver o tempo todo como um homem. Compreendia que ela não podia pensar sempre como ele pensava, andar como ele andava, respirar o ar que ele inspirava. Ela seria sempre diferente dele, escutaria uma música diferente e ouviria sons diferente, familiarizada com elementos diferentes. Ele compreendia que ela precisava de um tempo sozinha, que ela tinha de fechar os olhos e afundar nas oscilações da água, agitar seu rabo e respirar por suas guelras, esquecer as alegrias e privações de uma esposa  – somente por um breve tempo, uma vez por mês. Tiveram juntos filhos que cresceram belos e saudáveis. Ele prosperou, e seu castelo era famoso por sua riqueza e elegância. Era conhecido também pela grande beleza e doçura de sua dama, e visitantes vinham de longe para ver o castelo, seu senhor e sua bela esposa misteriosa.

O marido mortal de Melusina a amava, mas ela o intrigava. Ele não entendia a sua natureza e não estava satisfeito em viver om uma mulher que era um mistério para ele. Deixou que um hóspede o persuadisse a espioná-la. Escondeu-se atrás das tapeçarias nas paredes da casa de banho dela e a viu nadar sob a água da banheira. Quando ele a viu, a água batendo em suas escamas, a cabeça baixa na banheira que ele tinha construído especialmente para ela, achando que gostaria de se lavar – não de se transformar em peixe  -, sentiu aquela revolta instantânea que alguns homens sentem quando, talvez pela primeira vez, percebem que uma mulher é realmente “outra”. Ela não é um menino, embora seja frágil como um, nem uma tola, embora ele a tenha visto tremer de emoção como um tolo. Ela não é uma vilã em sua capacidade de reprimir o rancor, nem uma santa em seus arroubos de generosidade. Ela não tem nenhuma dessas qualidades masculinas. Ela é uma mulher. Completamente diferente de um homem. O que ele viu foi uma metade peixe, mas o que o assustou foi a metade mulher. Horrorizado, vendo o brilho da ondulação da água nas escamas, e conheceu o seu segredo: apesar de amá-lo sinceramente, ela continuava a ser metade mulher, metade peixe.

Ele não suportou o fato de ela ser o que era, e ela não podia deixar de sê-lo. Portanto a abandonou, porque, no fundo de seu coração, temeu que ela fosse uma mulher com uma natureza dividida – e não percebeu que todas as mulheres são criaturas de natureza dividida. Não suportou pensar no segredo dela, que ela tinha uma vida oculta para ele. Não pôde, de fato, tolerar a verdade: que Melusina era uma mulher que conhecia as profundezas desconhecidas, que nadava nelas.

Pobre Melusina, que se esforçou tanto para ser uma boa esposa, teve de deixar o homem que amava e voltar para a água, achando a terra difícil demais. Como tantas mulheres, ela não conseguiu se ajustar perfeitamente à visão de seu marido. Seus pés doíam: ela não podia andar no caminho escolhido por seu esposo. Tentou dançar para agradá-lo, mas não conseguiu negar a dor.

Melusina, a mulher que não podia esquecer seu elemento água, deixou os filhos com seu marido, foi embora com suas filhas. Os meninos se tornaram homens, governantes da cristandade. As meninas herdaram a Visão de sua mãe e seu conhecimento do saber misterioso. Nunca mais viu seu marido, nunca deixou de sentir sua falta. Na hora da morte, ele a ouve cantar. Então compreende, como ela sempre soube, que não tem importância se uma esposa é metade peixe, se um marido é mortal. Se houve amor, nada – nem natureza, nem mesmo a própria morte – pode se pôr no meio de dois que se amam.