Lenda da Sereia da Praia

sereia da praiaA lenda passa-se no tempo do povoamento da ilha, quando os lugares ainda não tinham nome. Numa noite de lua cheia um pescador avistou a boiar calmamente sobre as águas, em direcção à praia, uma mulher de longos cabelos negros e olhos castanhos, que ondulavam como o mar na aragem. Nua da cintura para cima, o seu corpo era de uma beleza única e esplendorosa, com um rosto de extrema suavidade.

O pescador, no areal, ficou deslumbrado com tão rara visão. Espantado e curioso, aproximou-se para averiguar, e quando já estava muito perto da mulher, que brincava nas águas envoltas em luar, percebeu com algum medo que o pescoço da mulher se encontrava desfigurado pelo que lhes pareciam guelras. Da cintura para baixo, apresentava a anatomia de um peixe. Uma sereia!, exclamou o homem espantado com a visão.

Perdido entre o medo e a aflição de não saber o que fazer, e consciente das histórias que se contavam das sereias que encantavam os homens e que os levavam para nunca mais serem vistos, o pescador julgou ser obra do diabo e começou a esconjurar a aparição. Mal o fez, a mulher presa no corpo de sereia voltou a ser simplesmente mulher, saindo das águas nua e pura, envolta em luar.

A lenda não informa se os dois foram felizes para sempre, mas está na origem do nome atribuído a esta praia no mapa feito pelo cosmógrafo real Luís Teixeira em 1584, para Filipe II de Espanha, aquando da sua viagem aos Açores nesse ano, que lhe atribuiu o nome de Plaia Hermosa – Praia Formosa.

Fonte.

A história real das sereias de Açores

Açores

Abaixo você poderá ler uma transcrição editada da reportagem ao lado, que conta a história das sereias dos Açores:

Papa Bernardes, batizado de John, por muitos anos tivera uma pequena pousada em Picoa, no subúrbio de Ponta Delgada, o principal porto dos Açores. Sua pousada levava o nome de Hotel Bernardes. Não tinha muitos hóspedes, mas por outro lado, havia um número suficiente para pagar o cozinheiro e o porteiro. Maria, a alegre esposa de John, servia como camareira, enquanto ele mesmo servia como balconista e caixa.

Havia um outro membro da família Bernardes, Teresa, e embora fosse apenas uma criança, estava mostrando os traços da beleza espanhola de que as mulheres dos Açores são conhecidas. Uma noite, na primavera de 1925, Bernardes deixou sua pousada, caminhou lentamente para um taberna, onde sabia que encontraria seus amigos. A situação política nos Açores era perturbadora, e não havia pouco a ser discutido.E assim a conversa dos quatro amigos ficara muito acirrada, e no calor da discussão Papa Bernardes tomou muito vinho e saiu para caminhar à beira-mar.

Enquanto caminhava e todo o pensamento de política o deixava, ele tornou-se imbuído da beleza e do mistério da noite. Prestes a entrar na pousada, ele parou para olhar mais uma vez para o oceano e, de repente, a cerca de cinquenta metros, viu claramente uma sereia. Estendida sobre as rochas, com um braço na água, e seus longos cabelos escorrendo pelo seu corpo. Chocado, Papa Bernardes correu para a água gritando “Venha aqui, minha querida!”. A sereia levantou a cabeça, parou por um momento, e então deslizou para a água. Suspirando, Bernardes voltou para sua pousada. Sentado em um banco e admirando as águas, o homem se surpreendeu a ver sua filha, Terese, pingando de água ao voltar para casa.

Bernardes brigou por sua filha nadar a aquela hora da noite. Teresa justificou-se dizendo que a água estava tão quieta e amigável que ela “tinha” que ir nadar um pouco. Açores (3)Batendo em Teresa por seu mal comportamento, Bernardes logo teve uma idéia. Enquanto olhava fixamente para o mar, Teresa correu para dentro de casa.

Dias depois, Bernardes perguntou casualmente a sua filha se ela achava que conseguia nadar com os pés amarrados. Ela riu e admitiu que conseguia nadar não só com os pés amarrados, mas as mãos também.

Durante vários dias, nada se viu da corpulenta Maria, esposa de John, mas era possível ouvir o zumbido de sua máquina de costura por toda a parte. Bernardes convocou então uma reunião familiar, e mandou Teresa vestir a roupa que sua mãe havia feito: era uma calda de peixe, feita de pano e coberto de lantejoulas brilhantes.

Vestindo primeiro sua roupa de banho, Teresa colocou a calda, que era apertada por uma corda em torno de sua cintura. “Agora Teresa”, disse Bernardes, “isso é um segredo e você não pode dizer a ninguém. Você é agora uma sereia e não se esqueça disso”.

Tremendo de emoção, Bernardes correu para a aldeia dizendo a todos que havia visto uma sereia nas rocha em frente à sua pousada. Aconteceu que havia na cidade uma jovem correspondente do jornal de Nova York. Contando a história fantástica das sereis em Açores, centenas de pessoas começaram a aparecer na pousada de John. Vários barcos ancoravam em Ponta Delgada durante a noite para ver a sereia. Eles não se decepcionavam: algumas noites era possível ver não uma, mas duas, sereias, sua “irmã gêmea”. Com a crescente popularidade, Bernardes reconstruiu sua pousada, nomeando-o de ” Hotel das Belas Sirenas Plaza”: Plaza Hotel das Belas Sereias.

Suspeitando da história da sereia, o comissário de polícia e um de seus tenentes saíram em um barco a motor e capturaram as duas belas criaturas. Entre elas estava a filha do proprietário do Hotel e uma de suas criadas vestidas com as engenhosas caldas de sereias.

Bernardes e sua família se deleitaram com a riqueza da farsa por mais de cinco anos. Sua filha Teresa e uma de suas empregadas tornaram-se um de seus maiores triunfos. No entanto, um comissário de polícia veio a Ponta Delgada, convencido de que aquilo era uma trapaça. Em uma noite, quando uma das sereias apareceu em uma rocha, o barco da polícia aproximou-se e, durante uma breve perseguição, uma sereia foi capturada. Alguns metros depois a outra sereia foi capturada. Os policiais a puxaram pela calda, e lá haviam duas pernas, e as meninas envergonhadas usavam roupas de banho cor de pele. Assim, o segredo das sereias dos Açores foi publicado, como se pode ver nesse jornal de 8 de Junho de 1930.

As sereias dos Açores é apenas uma das muitas fraudes semelhantes feias ao longo dos anos por diversos hoteleiros. Muitos contavam histórias de sereias, e nenhum jamais viu uma. Portanto, uma coisa pode-se dizer de John Bernardes: ele pode ter cometido uma fraude, mas nunca decepcionou uma pessoa!

Traduzido do artigo “The Azores Mermaid Hoax of 1930” escrito por Nanette South Clark.