A Touca encantada

Marina Alexandrova

Pintura e mosaico de Marina Alexandrova.

Em um belo dia de verão, Dick Fitzgerald fitava o mar de Gollerus, em uma vila do sul da Irlanda. O sol estava nascendo por trás das montanhas. A névoa saía da água, como a fumaça do cachimbo de Dick. “Que manhã bonita”, disse Dick. “Pode parecer solitário alguém falar consigo mesmo. Mas o que é um homem no mundo sem uma mulher? Porque ele não é mais completo do que a metade de um par de tesouras – ou uma linha de pesca sem um gancho”.

Dick notou uma estranha jovem tomando sol em uma rocha nas proximidades. A luz da manhã brilhava em seu cabelo verde-mar como manteiga derretida brilha em um repolho. Dick adivinhou a verdade: ela era uma sereia. Ele espiou seu chapeuzinho vermelho encantado a seu lado – o povo do mar usava toucas encantadas para mergulhar para baixo das profundezas do oceano. Dick aproveitou a chance para roubar a touca, pois ele tinha ouvido uma vez que se ele possuísse um boné de sereia, ela perderia o poder de nadar e voltar para casa.

Quando a sereia notou que sua touca tinha sumido, ela começou a chorar como um bebê recém-nascido. Lágrimas de sal escorriam pelo seu rosto. Embora Dick soubesse muito bem o que a afligia, não podia deixar de se sentir triste. Ele tinha, afinal, um coração terno. “Não chore, minha querida”, disse ele. Mas a sereia apenas chorava mais.

Dick sentou-se sobre a rocha e pegou a mão dela. Ele percebeu que a mão não era eia, apesar do fato que havia uma pequena teia entre os dedos, como se via em pés de pato. Sua pele era tão fina e branco como a pele do ovo e sua casca.

“Qual o seu nome?”, perguntou Dick.

Ela não respondeu.

Dick apertou a mão dela – pois isso é um ato universal e não há nenhuma criatura no mundo que não a entenda, seja peixe ou humana.

A sereia parou de chorar. “Homem, você vai agora me preparar para jantar?”, perguntou ela.
“Nunca”, disse Dick. “Eu preferiria cozinhar e comer a mim mesmo, minha querida”.
“Homem, o que você vai fazer comigo, se não vai me cozinhar para o jantar?”

Desde que Rick estava querendo uma esposa, ele estudou-a longamente. Ela era bonita, e falava como uma pessoa real. Sim, ele decidiu que estava apaixonado o suficiente por ela.

“Homem, o que você vai fazer?”, perguntou ela de novo.

O jeito com que ela o chamou de “homem” resolveu a questão imediatamente.

“Peixe”, disse Dick, tentando falar com ela. “Peixe, aqui vai uma palvra para você nesta manhã abençoada. Eu farei de você Senhora Fitzgerald”.
“Estou pronta e disposa, senhor Fitzgerald”, disse ela. “Mas primeiro deixe-me arrumar meus cabelos”.

Depois, a sereia enfiou seu pente no bolso de Dick. Em seguida, enclinou a cabeça para perto do mar e sussurou palavras misteriosas para a água. Dick viu o múrmuro de suas palavras em ondulações nas ondas. Elas deslizaram para o grande oceano como um sopro do vento.

“Você está falando com a água?”, perguntou ele com espanto.
“Só estou falando com meu pai”, disse ela. “Estou dizendo-lhe para ir em frente e tomar café-da-manhã sem esperar por mim”.
“E quem é seu pai, Peixe?”
“Ele é o rei das ondas”, disse a sereia.
“Oh meu Deus”, disse Dick. “Você deve mesmo ser a filha de um rei. Certamente, seu pai deve ter todo o dinheiro do fundo do mar.”
“Dinheiro? O que é dinheiro?”, perguntou a sereia.
“Oh, não é nada ruim. Talvez o peixes possam trazer alguns para cima”, disse Dick.
“Sim, os peixes vão me trazer o que eu quiser”, disse ela.
“Oh, então fale com eles”, disse Dick. “Pois tenho apenas uma cama de palha em casa. Nada adequado para a filha de um rei. Talvez você gostaria de um bom colchão de penas”.
“Certamente, Senhor Fitzgerald, eu tenho uma abundância de camas”, disse ela. “Quatorze bancos de ostras minhas”.
Dick coçou a cabeça. Ele parecia um pouco confuso. “Isso claramente é uma coisa agradável de ter”, disse ele. “É bom ter uma cama tão perto da ceia”.

Então Dick apresentou a sereia ao Padre Fitzgibbon e pediu-lhe para os casar. Mas o padre estava chocado. “Você quer se casar com uma mulher peixe! Mande a escamosa criatura para junto de sua própria espécie!”

“Por favor, padre, ela é a filha de um rei”, disse Dick.
“Não importa se ela é filha de cinquenta reis”, disse o padre. “Ela é um peixe!”
“Não, ela é tão leve e bela como a lua”, disse Dick.
“Eu não me importo se ela é tão leve e bela como a lua, o sol e as estrelas juntos. Você não pode se casar com um peixe, Dick. Ela é um peixe. Um peixe!”
“Mas ela tem todo o ouro do fundo do mar”, disse Dick.
“Oh, oh. Bom”, disse o padre, se endireitando. “Isso muda tudo. Por que você não me disse isso antes, Dick? Casa-se com ela, pelo amor de Deus!”

a toucaEntão o padre casou Dick e a sereia. E tudo prosperou para Dick. Ele estava vivendo no lado ensolarado da vida, por assim dizer. A sereia foi a melhor das esposas. Os dois viviam muitos felizes e ela prontamente lhe deu três filhos. Em suma, Dick era um homem feliz, e poderia ter continuado assim até o fim de seus dias, se ele não tivesse ido a Tralle para fazer negócios.

Mal Dick deixou a casa e a Sra. Fitzgerald começou a limpeza da casa. Logo ela teve a chance de se deparar com alguns apetrechos de pesca. E adivinha o que ela encontrou? Sim, sua touca vermelha encantada. O próprio Dick havia roubado, quando eles se conheceram.

A sereia sentou-se num banquinho e ficou olhando para a touca vermelha. Ela pensou nos dias felizes que passara no mar. E olhou para seus três filhos humanos, pensando em como ela quebraria o coração deles e de Dick. Mas eles não vão me perder completamente, pensou a sereia. “Eu vou voltar em breve”, ela disse e beijou-os de leve. “Quem pode me culpar para ir para casa fazer uma visita rápida?”, pensou.

Quando a sereia vestiu a touca encantada, ela ouviu um leve canto do mar, uma doce canção estranha exortando-a a voltar para sua terra, de onde foi roubada. E como ela foi subitamente inundada com as memórias de seu pai, o rei dos mares, sua mãe, a rainha do mar, e dos seus irmãos e irmãs do mar, ela sentiu um grande desejo de estar com todos eles novamente.

Então a Senhora Fitzgerald correu para a margem do Gollerus, onde o mar estava calmo, liso e brilhante à luz do sol. Enquanto mergulhava na água e desaparecia, sua família humana foi rapidamente esquecida.

Quando Dick chegou em casa naquela noite, seu filho lhe contou sobre a saída da mãe. Dick correu para seu equipamento de pesca e viu que a touca havia sumido. Ano após ano, Dick esperaria sua mulher sereia voltar para casa. Ele nunca se casou novamente, e no dia de sua morte, nada o convencia de que ela teria voltado para casa, se pudesse. “Seu pai, o rei, deve tê-la mantido no mar pela força”, foram suas últimas palavras.

Fonte: The Enchanted Cap.

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