A sereia da lagoa do moinho

Há muito tempo, um moleiro e sua mulher viviam na Floresta Negra. Eles tinham muita terra e muito dinheiro. Mas assim como uma ladrão que vêm à noite, o azar penetrou na vida do moleiro, e sua sorte começou a diminuir até que ele perdeu quase tudo.

O pobre moleiro estava tão perturbado sobre seu infortúnio que não conseguia comer ou dormir. Para piorar, sua esposa lhe disse que teria um bebê em breve.

Em uma manhã, depois de uma noite desesperada sem dormir, o moleiro decidiu-se afogar em uma lagoa que havia perto do moinho. “Minha mulher ficará bem melhor se eu morrer”, disse ele, “pois, em seguida, estará livre para se casar com alguém que tenha melhor sorte, que poderá cuidar bem dela e de nosso filho.”

Se sequer dizer adeus a sua esposa, o moleiro se arrastou de sua casa a caminho da lagoa. Á luz cinzenta do amanhecer, ele estava perto da água e reunia a coragem para afogar-se.

Mas, quando o moleiro olhou para a lagoa, o primeiro raio de sol rompeu ao longo da superfície vítrea, a água ondulou e uma bela sereia subiu das profundezas.

O moleiro ficou sem palavras, e olhou com espanto para a sereia. Ela tinha um cabelo ondulado longo e escuro, com olhos da cor da água mais azul.

“Por que você está trão triste, querido moleiro?”, ela perguntou com uma linda voz..

O moleiro ficou tocado ao ouvir uma voz tão gentil preocupada com ele. “Uma vez eu tinha uma grande riqueza”, disse ele. “Mas agora, não por minha culpa, estou pobre.”

“Oh, eu vou deixá-lo mais rico do que nunca”, disse a sereia. “Mas com uma condição: você deverá me dar seu primeiro filho”.

O moleiro ficou horrorizado. “Oh não, nunca!”, disse ele.

“Eu prometo que seu filho terá uma vida maravilhosa comigo”, disse a sereia. “Além disso, quais são as suas escolhas? Você deve dar o seu bebê para mim ou irá afogar-se em desespero”.

O desesperado moleiro não conseguia ver nenhuma outra solução para seus problemas, e prometeu trocar seu primeiro filho em troca de riquezas.

“Você decidiu sabiamente”, disse a sereia. E com isso, ela desapareceu nas profundezas da lagoa.

O moleiro estava preocupado com a promessa que havia feito para a sereia, mas ao chegar em casa, sua roupa esfarrapada havia se transformado na mais fina seda. Seus bolsos estavam cheios de moeda de ouro. E sua humilde casa se transformou em um castelo.

Quando o moleiro entrou no castelo, ficou muito feliz ao ver sua esposa deitada sobre uma cama de luxo, usando melhor vestido.

“Oh, o nosso bebê nos trouxe muita sorte!”, gritou a mulher. “Logo após eu dar à luz na madrugada, tudo mudou!”

“O nosso menino?”, disse o moleiro. Ele ficou surpreso ao descobrir que seu filho havia nascido em sua ausência. Olhando a bela criança, ele começou a chorar, e contou à sua esposa a terrível promessa que havia feito para a sereia.

Sua esposa ficou furiosa, é claro. Mas ela não perdeu tempo gritando com ele. Ao invés disso, abraçou o bebê ferozmente, dizendo: “Ela nunca vai tê-lo! Vamos vigiá-lo a cada momento de sua vida e ter certeza de que ele ficará longe da lagoa!”

Assim como havia prometido, grande prosperidade fluiu para a vida do moleiro. Mas ele não cumpriu sua parte do acordo, pois ele e sua esposa nunca deixaram o filho ficar perto da lagoa. “Cuidado!”, eles alertavam o menino constantemente.

“Se você tocar a água, uma mão se levantará e o arrastará para baixo”.

Conforme os anos passaram, o moleiro e sua esposa se preocupavam cada vez menos com seu filho e a lagoa. Ele sempre evitava a lagora, e uma vez que sereias não eram capazes de andar em terra, não parecia haver nenhuma maneira para que ela o capturasse.

O menino cresceu, tornou-se um caçador valente e se casou com uma moça gentil. Ambos viveram felizes juntos, em uma bela casa de campo.

Mas um dia, quando o caçador perseguia um veado, o animal atravessou um riacho. Sem o conhecimento do jovem, o riacho era alimentado pela água da lagoa. No fogo da perseguição, o caçador caiu no chão e lavou o rosto nas águas frescas do córrego.

De repente, uma sereia subiu. Antes do caçador poder escapar, ela passou os braços em volta de seu pescoço e arrastou-o para dentro da água. Ele abriu a boca para gritar, mas a água entrou em sua guarganta. Nem mesmo uma ondulação foi deixada na superfície do rio.

Quando o caçador não voltou para casa, sua esposa ficou alarmada. Ela correu para o castelo do moleiro e contou ao velho casal sobre o desaparecimento de seu filho. O moleiro e sua mulher explicaram sobre a terrível promessa feita há muito tempo para a sereia. Velhos, o casal estava muito fraco para sair de casa, e imploraram à menina que procurasse seu filho.

A esposa do caçador correu até a lagoa, e caminhou ao seu redor até descobrir o pequeno riacho. Lá, ela encontrou a bolsa do marido. A mulher chamava o nome de  seu amado, mas a superfície da água permanecia calma. Chorando baixinho, ela gritou várias vezes: “Dê-o de volta paramim!”. Mas nenhuma resposta veio.

Á meia-noite, a menina exausta caiu no chão em sono profundo. Enquando ela dormia, sonhou que estava escalando grandes rochas. Espinhos e galhos rasgavam seus pés e o vento jogava seu cabelo. Mas, finalmente, ela chegou ao cume da montanha. Lá, ela encontrou um padro verde cheio de flores. No meio da campina havia uma pequena casa de campo. Uma mulher idosa abriu a porta e chamou a menina para dentro.

“Eu vou ajudá-la”, idisse a velha. “Aqui está o meu pente de ouro. Quando você acordar, pente seu longo cabelo.”

Quando acordou de seu sono, a menina encontrou um pente de ouro em sua mão, a mesma que a velha lhe dera em um sonho. “Como pode este mero pente pode trazê-lo de volta?”, pensou ela com tristeza.

No entanto, ela começou a pentear seu longo cabelo. De repente, uma grande onda surgiu e, à luz da lua, as águas se separaram. Em seguida, a cabeça do caçador apareceu. Ele olhou para sua esposa e gritou com grande alegria, pois estava tão perto da liberdade! Mas assim que ele gritou, uma segunda onda cobriu o caçador. Ele desapareceu, deixando a lagoa imóvel como antes.

A menina chorou de tristeza. Pelo resto da noite e todo o dia seguinda, ela lamentou. Por volta da meia-noite da segunda noite, a esposa do caçador caiu em um sono profundo de novo, e logo ela estava subindo a montanha.

Quando ela chegou à pequena casa de campo, a velha abriu a porta e disse:

“Tome minha flauta de ouro. Quando você acordar, toque uma bela canção”.

A menina acordou e se viu segurando a flauta de ouro que a velha lhe dera em seu sonho. “Como pode uma flauta trazê-lo de volta?” ela pensou com tristeza.

No entanto, a esposa do caçador começou a tocar uma música assombrosamente doce. De repente, uma onda apareceu e, à luz da lua, as águas se separaram. Desta vez, não só a cabeça do caçador apareceu, mas metade do seu corpo saiu da água. Ele estendeu a mão para sua esposa com um olhar de grande saudade. Mas assim que suas mãos tocaram as dela, uma segunda onda o cobriu novamente.
A menina chorou de tristeza. Pelo resto da noite e todo o dia seguinda, ela lamentou. Por volta da meia-noite da terceira noite, a esposa do caçador caiu em sonho profundo, e mais uma vez ela sonhou que estava subindo a montanha para a casa da velha. Desta vez, quando a velha abriu a porta, a menina gritou: “Ai de mim! Quão bom é continuar vendo o meu amado, apenas para perdê-lo de novo?”

Ilustração de Troy Howell.

“Pegue a minha roda de fiar de ouro”, disse a velha. “Quando a lua estover alta, sente-se perto da costa e girar o carretel cheio.”

A esposa do caçador acordou para encontrar-se sentado ao lado de uma roda de fiar ouro. “Como pode uma roda de fiar trazê-lo de volta?” ela pensou com tristeza.

Mas assim que a esposa do caçador começou a girar uma poderosa onda varreu a lagoa. Desta vez, todo o corpo de seu amado subiu no ar. E desta vez, ele saltou para a praia! Ambos gritaram com grande alegria, e antes de se abraçarem, o caçador pegou sua esposa pela mão e puxou-a para longe da lagoa. Mas o casal não tinha ido longe quando ouviram um terrível estrondo e a água começou a transbordar da lagoa sobre a terra.

“A sereia está tentando nos afogar!” gritou a esposa do caçador. “Velha mulher dos meus sonhos, salve-nos!”

Instantaneamente, ela se transformou em uma rã, e seu marido foi transformado em um sapo. O sapo e a rã foram arrastados para a inundação, até que, finalmente, os dois pularam para terra firme. E então eles se tornaram humanos novamente. Mas, infelizmente, embora o caçador e sua esposa tivessem se salvado do afogamento, ambos tinham se separado durante a enchente.

Dia após dia, semana após semana, a triste mulher vagava pelos vales profundos e altas montanhas, em busca de seu marido. Não importa o quão duro ela procurava-o, ela não conseguia encontrá-lo.

Finalmente a mulher do caçador se tornou pastora. Mas, mesmo enquanto ela passeava com suas ovelhas, ela continuava a procurar os campos e florestas solitárias pelo seu marido perdido.

Um dia de primavera, a pastora ficou surpreso ao ver um pastor observando seu rebanho em um campo nas proximidades. Ela não podia dizer quantos anos tinha ou como se parecia, mas apenas a sua presença trouxe conforto para ela.

Naquela noite, quando a lua estava cheia e as ovelhas estavam descansando, a pastora ouvi uma música flutuando no ar da noite suave. Ela viu o pastor tocando sua flauta.

A música assombrando a fez chorar. Ela aproximou-se do pastor, e quando estava próxima o suficiente para ser ouvida, gritou para ele: “uma vez que eu toquei essa música para o meu amado. Mas apenas parte dele surgiu da lagoa”.

O pastor colocou sua flauta de lado e moveu-se lentamente em direção à pastora. Com a lua brilhando em seu rosto, a pastora reconheceu o pastor como o seu amor perdido há muito tempo. Ela gritou e correu para seus braços, e os dois choraram, riram e se amaram até a luz do dia.

Após o caçador e sua filha se reencontrarem, eles viajaram para o castelo do moleiro. O casal de velhos ficou exultante por ver seu filho vivo novaente.Quando ouviram a história do caçador e da sereia, o moleiro implorou pelo perdão de seu filho: “Nem todas as riquezas do mundo valem a perda de um filho”, disse ele.

Depois disso, o caçador e sua esposa passaram a morar do outro lado da serra, muito longa da sereia e sua lagoa.

Traduzido do conto “The Mermaid Of The Mill Pond“.
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