A anatomia da sereia e do tritão de Walmor Corrêa

correaEm 2005, o artista brasileiro Walmor Corrêa fez uma montagem no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Lá, o artista expôs estudos de anatomia de seres fantásticos.  Usando da anatomia humana, conversas com médicos sobre situações hipotéticas, leituras de cartas, diários e livros de diversos viajantes, o artista elaborou uma síntese onde não existe separação entre o erudito e o popular. Desse modo, as representações são o resultado de minuciosa pesquisa acerca de como funcionariam estes organismos se fossem reais.

“Há relatos de viajantes que contavam histórias de monstros marinhos, peixes que voavam, ursos que subiam em árvores. Isso existe ainda no nosso imaginário. Eu verso muito sobre essas teorias, sobre essas crenças”, ilustra.

WOndinaNa obra “Ondina” (outra denominação para o híbrido de mulher e peixe), o artista descreve a região occiptal do crânio, seus ouvidos e guelras, sua região pélvica, sua gestação, o coração e seu sistema eletro-cardíaco, o encéfalo e a válvula jugular, o olho e a órbita e suas situações vertebrais na coluna e na cauda. Curioso notar onde fica localizado a genitália: escondida por uma camada de escamas. Na descrição do coração de Ondina é possível ler:

“Localizado no centro do tórax, permanece com função de bombear sangue para o corpo suprindo as células com nutrientes e oxigênio. Quando o músculo cardíaco se contrai, ele força a passagem do sangue do átrio para os ventrículos e destes para fora. O sangue então volta ao coração por um complexo sistema venoso. Possui três cavidades: um átrio e dois ventrículos. As três cavidades têm praticamente o mesmo volume, mudando a espessura das paredes. Há um espaço grande entre o segundo e o terceiro batimento. O primeiro som ou bulha cardíaca é a batida do átrio, o segundo som a batida do ventrículo direito e o terceiro som a reverberação do sangue nas paredes do ventrículo esquerdo. A ativação cardíaca resulta de um impulso que se origina em uma célula ou grupo de células e da propagação deste impulso a todas as células do átrio e ventrículos”.

A paixão do artista por história, arte e biologia  levou-o a viagens pelo norte do País, onde embarcou nesse universo mitológico. Enquanto estava na Amazônia, um índio lhe contou uma história que motivou suas criações visuais:

“Um índio me mostrou local onde namorava uma sereia. Todo dia de manhã, eles namoravam enquanto ele pescava. Ao final da tarde, ela mergulhava e sumia. Como pode uma mulher peixe desaparecer dentro da água e não morrer de embolia. Como a ciência explicaria?

Depois de ter conhecimento dessas informações… resolvi comprovar a existência dos personagens, inclusive com um atlas de anatomia – explica Walmor – nele, mostro como seriam os órgãos de uma sereia.

Acredito que, ao viabilizar fisiologicamente a existência desses seres, não somente respondo a algumas das perguntas que fiz à natureza quando criança, de acordo com a minha própria interpretação dos paradigmas da ciência, como proponho uma interrogação e uma reflexão acerca dos limites das nossas certezas”

Entre os relatos de viajantes usados pelo artista, está o do holandês Barléu (1554 – 1648), que fala de um híbrido que se aproxima morfologicamente da sereia. Trata-se dos Ipupiaras. Tais seres podem ser avistados nas proximidades de Porto Seguro e na Baía de Todos os Santos (Bahia). O espanhol José de Anchieta (1584 – 1597) completa a lenda do Ipupiara caracterizando-o como um fantasma do rio que mata os índios, vira canoas, afogando-os.

Na obra “Ipupiara”, o artista inventa e calcula sua anatomia e fisiologia, desmonta seu corpo na base do encéfalo, nos pulmões, na base do cérebro, em esqueleto, na abóbada craniana, na cavidade bucal, no ádito da laringe, na mandíbula e no osso do quadril e pélvico. Suas “patas atrofiadas” funcionam como nadadeiras.

No Brasil entre os séculos XVII e XIX muitas espécies eram descritas, estudadas e divulgadas conforme padrões científicos, ignorando suas dimensões fabulosas e imaginativas- esse registros foram usados pelo artista, criando seres completamente improváveis, mas absolutamente
plausíveis.

Em 2009, na Fundação Hassis em Florianópolis, o artista apresentou uma instalação denominada Sítio arqueológico, onde era possível confirmar diante de uma caixa de madeira e areia,  medindo 30 cm altura, 153 de largura e 233 de comprimento, um esqueleto devidamente catalogado e identificado como o que restava do corpo de uma sereia. Criado com a ajuda de biólogos, médicos e veterinários, a idéia era dar sustentação científica à obra. Três anos depois, outro sítio arqueológico foi criado no Jardim Botânico, onde um um fóssil de uma sereia foi exposta ao público como se a descoberta fosse verídica.

sitio“Esqueleto quase completo de uma Sereia, espécie ainda não conhecida pela ciência. A descoberta foi feita em parceira com o Jardim Botânico do Rio Grande do Sul. Quando funcionários do Jardim Botânico preparavam o terreno para construir um pequeno jardim, encontraram um fragmento ósseo. Não sabendo do que se tratava, o material foi encaminhado ao especialista Walmor Corrêa, que o identificou como sendo de uma Sereia. A área foi isolada e as escavações prosseguiram até encontrarem o esqueleto quase completo. Este esqueleto representa uma linhagem de mamíferos completamente adaptados à vida na água, como os golfinhos e as baleias. Seu esqueleto apresenta modificaçõesna cauda, nas vertebradas, ausência de cintura pélvica e membros anteriores em forma de nadadeiras, adaptações que favoreceram a vida no ambiente aquático. Ainda resta saber como o espécime teria morrido, acredita-se que os primeiros colonizadores do Rio Grande do Sul o teriam capturado nas proximidades do Lago Guaiba, e posteriormente vieram enterrá-lo onde hoje é o Jardim Botânico.”

Bibliografia:
JORGE, Eduardo. “Notas para uma arqueologia da sereia: a Ondina de Walmor Corrêa“. Acesso em 5 de Agosto de 2014.
MARQUES, Fábio. “Entranhas oníricas“. Acesso em 5 de Agosto de 2014.
CHEREM, Rosângela Miranda. “Walmor Correa, um artista de fricções“. Acesso em 5 de Agosto de 2014.
JB recebe obra artística que simula sítio arqueológico com fóssil de sereia“. Acesso em 5 de Agosto de 2014.
Anatomia de uma Sereia“. Acesso em 5 de Agosto de 2014.

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