A história real da sereia de Fiji

Sereia de FijiEm meados de julho de 1842, um jovem cavalheiro com o nome Dr. J. Griffin, um membro do Liceu Britânico de História Natural, chegou a Nova York com uma curiosidade notável: uma sereia de verdade supostamente capturada perto das ilhas Fiji no Sul do Pacífico. A imprensa estava esperando por ele, pois durante todo o verão eles estiveram recebendo cartas do médico descrevendo sua sereia. Ao chegar no hotel, os repórteres estavam esperando-o, pedindo para ver a sereia. A contragosto, o homem mostrou a criatura, que convenceu a todos com a sua “autenticidade”.

Logo depois, o empresário P.T. Barnum visitou os principais jornais da cidade, onde explicou que estava tentando convencer o Dr.Griffin para exibir sua sereia em seu museu. Infelizmente, o médico não estava disposto a fazê-lo. Barnum ofereceu aos jornais o uso de uma xilogravura de uma bela e seminua sereia. Os jornais, cada um pensando que tinha o desenho exclusivo, aceitaram a oferta e no domingo 17 de Julho de 1843, xilogravuras de sereias apareceram em todos os jornais. Simultaneamente, Barnum distribuiu dez mil cópias de um panfleto sobre sereias por todas a cidade.

Panfleto do jornal "Charleston Courier" anunciando a exibição da sereia.

Panfleto do jornal “Charleston Courier” anunciando a exibição da sereia.

Com toda essa publicidade, a curiosidade para ver a sereia de Fiji (ou Feejee) foi o tema principal das conversas de toda a cidade. Todos queriam ver por si mesmos. Então Dr.Griffin concordou em exibí-la durante uma semana no Concert Hall, na Broadway. Enormes multidões apareceram na exposição, e Dr.Griffin deu paletras para multidões sobre suas experiência como explorador, contando também suas teorias da história natural. Essas eram um tanto peculiares. Por exemplo, seu principal argumento era  de que as sereias deveriam ser reais uma vez que todas as coisas na Terra também existiam no oceano – como cavalos marinhos, leões marinhos, cães marinhos, etc. Desse modo, deveríamos assumir que também há “humanos marinhos”.

Ao longo de todo esse tempo, o público tinha se decepcionado três vezes. Em primeiro lugar, apesar dos anúncios mostrarem a sereia como uma mulher jovem e bonita, a criatura era bem menos atraente. Tinha o corpo murcho de um macaco e o rabo de um peixe seco. Como o correspondente do jornal “Charleston Courier” colocou:

“É uma alusão… a visão da maravilha foi para sempre roubada de nós – jamais teremos novamente o discurso, mesmo na poesia, da beleza da sereia, nem conquistaremos uma sereia mesmo em nosso sonhos – pois a senhora Fiji é a própria encarnação da feiúra”.

Em sua autobiografia, Barnum descreve a sereia como um ser feio, seco, preto na aparência e pequeno, seus braços postos para cima, “dando-lhe a aparência de ter morrido em grande agonia”.

Em segundo lugar, o Dr. Griffin era uma fraude. Ele não era um cavalheiro inglês. Na verdade, o Liceu Britânico de História Natural não existia. Seu verdadeiro nome era Levi Lyman, e ele era cumplice de Barnum. A introdução da sereia e sua exposição tinha sido fruto da imaginação de Barnum o tempo todo. Ele tinha arranjado cartas sobre o tal Dr.Griffin para serem enviados aos jornais de Nova York furante o verão e então orquestrou cuidadosamente a publicidade para quando o Dr. Griffin chegasse em Nova York. Tudo isso fora feito para dar a sereia um verniz de respeitabilidade científica.

Finalmente, a própria sereia era uma farsa, e Barnum sabia disso. Ele tinha alugado a sereia do showman Moses Kimball, de Boston – que por sua vez a tinha comprado de um marinheiros – mas antes de montar todo o “show” ele havia consultado um naturalista sobre a autenticidade da sereia. O profissional havia lhe assegurado que era falsa. No entanto, Barnum percebeu que não era importante se a sereia era ou não real. Tudo o que importava era que o público fosse levado a acreditar que fosse real. Então ele contratou um falso naturalista, Dr. Griffin, para atestar a autenticidade da criatura, colocou imagens de sereias nuas nos jornais, manipulando o público a querer vê-la.

A sereia do capitão, ilustração de 1822.

A sereia do capitão, ilustração de 1822.

A criatura era um exemplar de uma forma de arte tradicional aperfeiçoada por pescadores no Japão e Índia orientais que construíam falsas sereias costurando a parte superior de corpos de macacos com a calda de peixes. Eles muitas vezes criavam esses animais para uso em cerimônias religiosas. Acredita-se que a sereia de Fiji tenha sido feita por volta de 1810 por um pescador japonês. Em seguida, foi comprada por comerciantes holandeses, e em 1822, comprada por um capitão americano, Samuel Barret Eades, que teve que vender seu navio para comprá-la. Ele esperava fazer fazer fortuna com a sereia ao exibí-la, mas não teve sucesso. Além disso, os naturalistas britânicos tiveram a oportunidade de examinar a criatura, sendo logo desmascarada pela imprensa e amortecendo o interesse do público na hora. Quando Eades morreu, a sereia passou para seu filho, que a vendeu para Moises Kimball.

Depois da exibição de um mês em seu Museu, Barnum decidiu enviar a sereia em uma excursão pelos estados do sul. Ele confio a seu tio, Alanson Taylor, essa tarefa. No entanto, quando Taylor e a sereia chegaram na Carolina do Sul, se viram envolvidos em uma amarga disputa entre dois jornais rivais, o Cahrleston Courier e o Charleston Mercury, sendo a sereia o foco de suas disputas. O problema começou quando Richard Yeadon, editor do Courier, declarou que acreditava que a sereia era real. Na mesma hora, Rev. John Bachman, um naturalista amador, publicou no Mercury que acreditava que a sereia era uma farsa. Esta discussão trouxe um fim precoce a turnê, e a sereia foi secretamente enviada de volta para Nova York. Nos próximos vinte anos, a sereia dividiria seu tempo entre o Museu de Kimball em Boston e o Museu de Barnum em Nova York. Sua maior aventura ocorreu em 1859, quando foi levada em uma turnê em Londres. Quando voltou, a sereia ficou no Museu de Kimaball, onde seu paradeiro some. É possível que ela tenha sido destruída quando o Museu de Barnum foi incendiado em 1865. No entanto, é provável que ela estivesse no Museu de Kimball, que também foi incendiado no início dos anos de 1880.

Sereia de Harvard.

Sereia de Harvard.

O Museu Peabody de Arqueologia e Etnologia da Universidade de Harvad possui hoje uma sereia que alguns tem especulado como sendo a sereia de Fiji original. De acordo com seus registros, esta criatura foi salva do incêndio que consumiu o museu de Kimball, tendo sido doado a Harvard por seus herdeiros. O problema é que essa sereia não se parece em nada com a sereia de Fiji, sendo muito menor e menos trabalhada. Além disso, de acordo com os registros a sereia original tinha a mão direita colocada contra a face direita, e a esquerda ficava embaixo de seu maxilar inferior esquerdo.  É provável, então que a sereia original tenha sido queimada em um dos dois incêndios.

Bibliografia:
Feeje Mermaid“. Acesso em 16 de Julho de 2014.
Fiji mermaid“. Acesso em 16 de Julho de 2014.
“The Feejee Mermaid, 1842“. Acesso em 16 de Julho de 2014.

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