A lenda de Iara

Iara em "A Turma da Mônica"Segundo a lenda, Iara, cujo nome significa “aquela que mora na água”, era a melhor índia guerreira de uma tribo amazônica, e recebia muitos elogios de seu pai, que era o pajé da vila. Os irmãos de Iara tinham muita inveja e resolveram matá-la à noite, enquanto dormia. Iara, que possuía um ouvido bastante aguçado, os escutou e os matou. Com medo da reação de seu pai, Iara fugiu. Seu pai, o pajé da tribo, realizou uma busca implacável e conseguiu encontrá-la, e como punição pelas mortes a jogou no encontro dos Rios Negro e Solimões. Alguns peixes levaram a moça até a superfície e, em uma noite de lua cheia, a transformaram em uma linda sereia.

Conta a lenda que Iara é considerada a mãe d’água, e que a mesma encanta os pescadores por sua beleza. É morena, índia, com cabelos castanhos e longos, cobrindo seus seios, que ficam à mostra. Como toda lenda, a história da Iara também tem seu lado fantasioso, inventado pelos homens: nas noites de lua cheia ela torna-se conquistadora, atraindo os pescadores, exibindo-se para eles, desvendando seu corpo de sereia. Também usa do seu canto para deixá-los meio hipnotizados. Dessa forma, faz com que eles a acompanhem até o fundo do rio. Dizem que a Iara atrai os homens  sob a promessa de uma eterna bem-aventurança em seu palácio, onde a vida é uma felicidade sem fim.  A maioria morre nas profundezas do rio, e os poucos que conseguem voltar acabam ficando loucos em função dos encantamentos da sereia.  Neste caso, conta a lenda, somente um ritual realizado por um pajé (chefe religioso indígena, curandeiro) pode livrar o homem do feitiço.

Iara  deixa sua casa no fundo das águas no fim da tarde. Surge magnífica à flor das àguas: metade mulher, metade peixe; cabelos longos enfeitados de flores vermelhas. Por vezes, ela assume a forma humana e sai em busca de vítimas. Iara, como índia, possui pele parda, olhos castanhos e cabelos negros (alguns dizem que é verde-escuro). Iara também fazia mulheres de vítima ao se transformar em um belo homem. As crianças também são vítimas, e após desaparecem misteriosamente, creem os ribeirinhos que essas crianças ficam “encantadas” no reino da “gente do fundo”. Lá o menino é instruído no preparo de todos os tipos de remédios. Passados sete anos, durante os quais foi iniciado nas artes mágicas e na manipulação de plantas e ervas, o jovem pode retornar para junto dos seus, onde, geralmente, se torna um grande curandeiro.

Iara em "A Turma da Mônica"Um dos homens encantados por Iara foi o índio Tapuia. Certa vez, pescando, ele viu a deusa, linda, surgir das águas. Resistiu, não saiu da canoa, remou rápido até a margem e foi se esconder na aldeia. Mas  Tapuia ficara enfeitiçado pelos olhos e ouvidos não conseguia esquecer a voz de Iara. Numa tarde, morto de saudade, fugiu da aldeia e remou na sua canoa rio abaixo. A sereia já o esperava cantando a música das núpcias. Tapuia se jogou no rio e sumiu num mergulho, carregado pelas mãos da noiva. Uns dizem que naquela noite houve festa no chão das águas e que foram felizes para sempre. Outros dizem que na semana seguinte a insaciável Iara voltou para levar outra vítima.

Em seu poema “A Iara”, Olavo Bilac descreve a sereia:

Vive dentro de mim, como num rio,
Uma linda mulher, esquiva e rara,
Num borbulhar de argênteos flocos, Iara
De cabeleira de ouro e corpo frio.
Entre as ninféias a namoro e espio:
E ela, do espelho móbil da onda clara,
Com os verdes olhos úmidos me encara,
E oferece-me o seio alvo e macio.
Precipito-me, no ímpeto de esposo,
Na desesperação da glória suma,
Para a estreitar, louco de orgulho e gozo…
Mas nos meus braços a ilusão se esfuma:
E a mãe-d’água, exalando um ai piedoso,
Desfaz-se em mortas pérolas de espuma.

Curiosamente, registros dos séculos XVI e XVII mostram que, no começo, Iara era um personagem masculino e chamava-se Ipupiara, um homem-peixe, que devorava pescadores e os levava para o fundo do rio. Não há um só aspecto simpático em Ipupiara: é um horrendo monstro marinho, esfomeado e apavorante, saindo da água para matar, sempre matar. De acordo com os cronistas, não aparece no Ipupiara o poder de transformar-se em homem ou mulher.

sereia européiaA Iara (Ig-água, Iara-Senhor) é uma roupagem de cultura européia. Não há lenda entre os índios que tenha registrado a Iara de cabelos longos e voz encantadora. As lendas indígenas mais antigas citam sempre um Velho Homem Marinho, e não a Iara. A presença da sereia indica claramente a força da presença dos mitos dos brancos ou a influência assimiladora do mestiço, que a tudo absorvia, como se fora uma esponja. É possível notar influências estrangeiras em três pontos da história: os métodos de sedução da sereia – o índio não reprime sua sexualidade pelos arreios da sua cultura ou da civilização cristã do branco, razão pela qual não se vale de entes sensuais na sua mitologia -, a oferta de tesouros e palácios – os índios desconheciam tais valores -, e a beleza física de Iara, muitas vezes retratada como branca, loura e de olhos verdes.

Além do Ipupiara, o índio brasileiro têm apenas mais uma tradição sobre monstros aquáticos: o Boiúna, também conhecido como Cobra Grande ou Cobra Negra, que era uma enorme cobra escura capaz de virar as embarcações, tendo também o poder de imitar a forma de um navio, causando acidentes marítimos. No entanto, o Boiúna em nenhum momento tem o poder de se transformar em humano, e nenhuma lenda tradicional dos índios brasileiros narra qualquer lenda que seja parecia com a lenda de Iara.

Bibliografia:
Iara. Acesso em 17 de Julho de 2014.
Iara. Acesso em 17 de Julho de 2014.
Iara.Acesso em 17 de Julho de 2014.
Cabocla Iara. Acesso em 17 de Julho de 2014.
A Lenda da Iara, a Mãe DáguaAcesso em 17 de Julho de 2014.
Iara. Acesso em 17 de Julho de 2014.
A lenda da Iara, a sereia. Acesso em 17 de Julho de 2014.

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2 pensamentos sobre “A lenda de Iara

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