A lenda de Melusina, conforme contada por Jean d’Arras

A história de Melusine começa quando Elynas, o rei de Albany, saiu para caçar e deparou-se com a fada Presina, uma bela dama. Ele persuadiu-a a casar-se com ele, e ela só concordou sob a condição — pois freqüentemente há uma condição dura e fatal vinculada a qualquer união entre fada e mortal — de que ele não deveria entrar na alcova quando ela desse à luz ou banhasse suas crianças. Ela deu à luz trigêmeas. Quando ele violou este tabu, Presina deixou o reino com suas três filhas, e viajou para a ilha perdida de Avalon.

As três garotas — Melusina, Melior e Palatina (ou Palestina)— cresceram em Avalon. Em seu décimo-quinto aniversário, Melusina, a mais velha, perguntou por que elas haviam sido levadas para Avalon. Ao ouvir sobre a promessa quebrada pelo pai, Melusina jurou vingança. Ela e suas irmãs capturam Elynas e o trancafiam, com suas riquezas, numa montanha. Presina se enraivece quando toma conhecimento do que as garotas haviam feito e as pune por ter desrespeitado o pai, e atribui a cada uma de suas filhas um terrível castigo. Se elas não tivessem prendido seu pai, com o tempo a descendências das três mulheres teriam tornado-se completamente humanas, vivendo suas vidas até à morte como mulheres mortais. Melusina foi condenada a tomar a forma de uma serpente da cintura para baixo, todo sábado. O único modo de acabar com o feitiço era casar-se com um homem que obedecesse à regra de nunca vê-la neste dia.

Anos depois, Raymond de Poitou encontrou Melusina numa floresta da França, e depois de de passarem a noite conversando, ficaram noivos, mas com uma condição: Melusina fez Raymond prometer que ele nunca a veria no sábado, quando suas pernas viravam caldas – mas ela não contou isso para ele. Ele concordou, e eles se casaram. Melusina trouxe a seu marido grande riqueza e prosperidade. Ela se apresenta para o mundo como a filha de um poderoso rei, e imeditamente ganha admiração universal por sua beleza e decoro na corte. Melusina construiu uma fortaleza tão rapidamente que pareceu ter sido feito por magia. Com o tempo, ela construiria muitos castelos, fortalezas, igrejas, torres e vilas, cada um em uma única noite, em toda a região. Melusina e Raymond tiveram dez filhos, mas cada criança tinha um defeito: o mais velho tinha um olho vermelho e outro azul, um outro tinha uma orelha maior do que a outra, o outro tinha um pé-de-leão crescendo em sua bochecha, um outro tinha apenas um olho, outro tinha um grande dente da frente. Apesar das deformidades, as crianças eram fortes, talentosas e amados por todo o reino.

Um dia, o irmão de Raymond, Conde de Feroz, foi visitá-lo. Ele organizou uma maravilhosa festa para seu irmão. Depois de dar boas-vindas, eles são à Igreja e, em seguida, entram no salão principal do castelo onde se sentam à mesa. Seu irmão pergunta aonde está sua esposa, e pergunta sobre o rumor de que sua esposa de esconde todos os sábados para fazer maldades. Melusina 1Raymond, irritado, empurra a mesa para longe dele, pega sua espada, coloca em seu cinturão e corre para onde ele sabe que Melusina se esconde todos os sábado. Lá, ele encontra uma porta sólida, muito grosso. Ele nunca tinha ousado avançar tanto. Raymond saca a espada e com a ponta cava um buraco. Ele ficou horrorizado ao ver que ela tinha o corpo e a cauda de uma serpente da cintura para baixo. Ele não disse nada até o dia em que seu filho, Greoffrey – o que tinha um grande dente – atacou um mosteiro e matou cem monges, incluindo um de seus irmãos. Raymond acusou Melusina de contaminar seus filhos com sua natureza de serpente, revelando que ele tinha quebrado sua promessa.

No mesmo momento, Raymond se entristece por ter quebrado sua promessa. Ele corre para o quarto, pega um pedaço decera e tampa o buraco que havia feito na porta. Embora ele não sinta nenhuma aversão, ele fica triste por ter quebrado sua promessa, e fica com raiva de seu irmão. Ele pede perdão a Melusina, embora não tenha contado a ela o que fez de errado. Suas vidas juntos continuam sem problemas até o momento em que chega uma terrível notícia:  Geoffrey, o filho de dente grande, ficara furioso ao saber que seu irmão Fromont tinha decidido juntar-se a uma comunidade monástica, colocando-a em chamas, matando seu irmão juntamente de cem monges. Raymond fica tão devastado com a notícia que execra Melusina publicamente, chamando-a de “serpente traiçoeira”, cuja descendência nunca poderia ter um bom final.

Esta revelação dramática lança uma sombra não só sobre Melusina, mas sobre seus filhos também. Consciente das implicações, ela imeditamente tenta evitar que qualquer coisa ruim aconteça com eles, e revela sua ascendência, sobre sua mai e seu pai. Ela, no entanto, não revela que sua mãe era uma fada e nem oferece qualquer explicação sobre a origem de  sua transformação. Melusina dá então um discurso de despedida angustiado sobre seu fracasso na aspiração de alcançar a humanidade, e, assim, sua salvação:

“Ah! Raymond, o dia em que eu o vi pela primeira vez foi para mim um dia de tristeza! Ai! Para minha desgraça eu vi tua graça, teu charme,  teu belo rosto. Para minha tristeza eu desejava a sua beleza, e você tão ignóbil me traiu. Embora você tenha falhado em sua promessa, eu te perdoo do fundo do meu coração por ter tentado me ver, nem mesmo falando isso para você, pois você não o relevaria a ningém. E que Deus perdoe você, por que você teria feito penitências por ele neste mundo. Ai! Meu amado, agora nosso amor virou ódio, a nossa ternura crueldade, nossos prazeres e alegrias viraram lágrimas e choro, a nossa felicidade virou grande desgraça e calamidade. Ai! Meu amado, se você não tivesse me traído eu teria sido salva de minhas dores e meus tormentos, eu teria vivo o curso natural da vida como uma mulher comum, teria morrido de uma forma normal, com todos os sacramentos da Igreja, eu teria sido enterrada na igreja de Notre-Dame de Lusignan e missas comemorativas teriam sido feita por mim, como deveriam ser. Mas agora você me mergulhou de volta na escura penitência que eu conheci durante tanto tempo, por minha culpa. E essa penitência eu devo suportar até o Dia do Juízo final, porque você me traiu. Eu oro a Deus para perdoar você”.

Ela voltaria à noite para visitar seus filhos e depois desapareceria, também prestando visitas a todos os seus descendentes que estivessem perto da morte. Raymond nunca mais foi feliz. Dizia-se que a descendência de Melusina reinaria até o fim do mundo.

Bibliografia:
FOUBISTER, Linda. “The Story of Melusine“. Acesso em 17 de Julho de 2014.
Le Livre de Mélusine de Jean d’Arras. Acesso em 17 de Julho de 2014.
Jean d’Arras. Acesso em 17 de Julho de 2014.
Jean d’Arras, and Translated and with an introduction by Donald Maddox and Sara Sturm-Maddox. Acesso em 17 de Julho de 2014.

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