A lenda de Melusina, conforme contada por Philippa Gregory

No escuro da floresta, o jovem  cavaleiro ouviu o barulho da água na fonte muito antes de ver o fraco clarão do luar refletido na superfície imóvel. Estava prestes a avançar; ansiava por molhar a cabeça, absorver o frescor, quando ficou sem fôlego ao perceber algo obscuro movendo-se no fundo do lago. Havia uma sombra esverdeada submersa, parecida com um peixe grande, um corpo afogado. Então o vulto se mexeu e se levantou, e ele viu, espantosamente nua, uma mulher se banhando. Quando ela se ergueu, a água escorrendo pelo corpo, sua pele era ainda mais pálida do que o mármore branco da borda do lago, seu cabelo molhado, escuro como uma sombra.

Ela é Melusina, a deusa da água, e é encontrada em fontes e quedas d’água escondidas por todas as florestas da cristandade, até mesmo naquelas tão distantes quanto as da Grécia. Ela também se banha nas fontes mouras. Nos países do norte, onde a superfície dos lagos é coberta por uma camada de gelo que se fende quando ela se ergue, é conhecida por outro nome. Um homem pode amá-la, se guardar o seu segredo e deixá-la sozinha quando  ela quiser se banhar, e ela pode retribuir o seu amor até ele quebrar sua promessa, com os homens sempre fazem.  Ela puxa-o para o fundo, com seu rabo de peixe, e transforma seu sangue desleal em água.

A tragédia de Melusina, em qualquer língua que seja contada, em qualquer melodia que seja cantada, mostra que um homem sempre promete mais do que é capaz de cumprir a uma mulher que ele não pode compreender.

Na escuridão da floresta, ele a viu e murmurou seu nome, Melusina, e ao seu chamado, ela ergueu-se na água. Ele viu que ela era uma mulher dotada de uma beleza fria e perfeita até a cintura, e abaixo, era coberta de escamas, como um peixe. Ela prometeu ir com ele e ser sua mulher, prometeu que o faria tão feliz quanto uma mortal, que refrearia seu lado selvagem, sua natureza dependente das marés,  que seria uma mulher normal para ele, uma esposa de quem ele poderia se orgulhar. Em troca, ele deveria permitir que ela tivesse um tempo para ser ela mesma, para retornar ao seu elemento água, para se lavar e se livrar do trabalho penoso destinado a uma mulher e para ser, mais uma vez, só por um breve intervalo de tempo, a deusa da água. Sabia que ser uma mulher mortal é difícil no coração, é difícil nos pés. Sabia que precisaria ficar sozinha na água, sob a superfície, a agitação da água refletida em seu rabo escamoso de vez em quando. Ele prometeu que lhe daria tudo, que concederia tudo o que quisesse, como homens apaixonados sempre faze. E ela confiou nele, mesmo sem querer, como mulheres apaixonadas sempre fazem.

Combinaram que ela seria sua esposa e caminharia com pés, mas uma vez por mês, ela poderia ir à sua própria câmara, encher uma banheira de água e, por uma noite, ser sua metade peixe. E assim viveram felizes durante muitos anos. Pois ele a amava e compreendia que uma mulher não pode viver o tempo todo como um homem. Compreendia que ela não podia pensar sempre como ele pensava, andar como ele andava, respirar o ar que ele inspirava. Ela seria sempre diferente dele, escutaria uma música diferente e ouviria sons diferente, familiarizada com elementos diferentes. Ele compreendia que ela precisava de um tempo sozinha, que ela tinha de fechar os olhos e afundar nas oscilações da água, agitar seu rabo e respirar por suas guelras, esquecer as alegrias e privações de uma esposa  – somente por um breve tempo, uma vez por mês. Tiveram juntos filhos que cresceram belos e saudáveis. Ele prosperou, e seu castelo era famoso por sua riqueza e elegância. Era conhecido também pela grande beleza e doçura de sua dama, e visitantes vinham de longe para ver o castelo, seu senhor e sua bela esposa misteriosa.

O marido mortal de Melusina a amava, mas ela o intrigava. Ele não entendia a sua natureza e não estava satisfeito em viver om uma mulher que era um mistério para ele. Deixou que um hóspede o persuadisse a espioná-la. Escondeu-se atrás das tapeçarias nas paredes da casa de banho dela e a viu nadar sob a água da banheira. Quando ele a viu, a água batendo em suas escamas, a cabeça baixa na banheira que ele tinha construído especialmente para ela, achando que gostaria de se lavar – não de se transformar em peixe  -, sentiu aquela revolta instantânea que alguns homens sentem quando, talvez pela primeira vez, percebem que uma mulher é realmente “outra”. Ela não é um menino, embora seja frágil como um, nem uma tola, embora ele a tenha visto tremer de emoção como um tolo. Ela não é uma vilã em sua capacidade de reprimir o rancor, nem uma santa em seus arroubos de generosidade. Ela não tem nenhuma dessas qualidades masculinas. Ela é uma mulher. Completamente diferente de um homem. O que ele viu foi uma metade peixe, mas o que o assustou foi a metade mulher. Horrorizado, vendo o brilho da ondulação da água nas escamas, e conheceu o seu segredo: apesar de amá-lo sinceramente, ela continuava a ser metade mulher, metade peixe.

Ele não suportou o fato de ela ser o que era, e ela não podia deixar de sê-lo. Portanto a abandonou, porque, no fundo de seu coração, temeu que ela fosse uma mulher com uma natureza dividida – e não percebeu que todas as mulheres são criaturas de natureza dividida. Não suportou pensar no segredo dela, que ela tinha uma vida oculta para ele. Não pôde, de fato, tolerar a verdade: que Melusina era uma mulher que conhecia as profundezas desconhecidas, que nadava nelas.

Pobre Melusina, que se esforçou tanto para ser uma boa esposa, teve de deixar o homem que amava e voltar para a água, achando a terra difícil demais. Como tantas mulheres, ela não conseguiu se ajustar perfeitamente à visão de seu marido. Seus pés doíam: ela não podia andar no caminho escolhido por seu esposo. Tentou dançar para agradá-lo, mas não conseguiu negar a dor.

Melusina, a mulher que não podia esquecer seu elemento água, deixou os filhos com seu marido, foi embora com suas filhas. Os meninos se tornaram homens, governantes da cristandade. As meninas herdaram a Visão de sua mãe e seu conhecimento do saber misterioso. Nunca mais viu seu marido, nunca deixou de sentir sua falta. Na hora da morte, ele a ouve cantar. Então compreende, como ela sempre soube, que não tem importância se uma esposa é metade peixe, se um marido é mortal. Se houve amor, nada – nem natureza, nem mesmo a própria morte – pode se pôr no meio de dois que se amam.

 

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